O homem caminha pro mesmo lugar:
cruza centenas de países, aprende idiomas mortos;
desperta lagos e oceanos baldios;
apreende culturas irrelevantes, outras ele mesmo aniquila;
dorme sob cruzeiros infames de antigas constelações;
abraça o vento facínora de brasões esquecidos;
circunda promessas de amor irrefutáveis sem jamais ser fiel, se quer a uma estrela;
dorme na mentira, acorda rei de grandes estações;
caminha pro mesmo lugar,
miseravelmente curvado, mendiga segundos,
oxida como a navalha junto a qualquer braço de mar,
seu arfar vivo-morto todas as veias respiram
é o embalo do destino escuro da mesma lenha.
O homem avança pra trás,
para o mesmo lugar de partida.
E tem-se a leve sensação de alcançar novas terras, novas coisas, novos homens.
Cogita universos, sem saber de nenhum por inteiro,
mal sabe de si, e inventa-se maior, pra engrandecer o caminho de volta para o mesmo lugar,
em torno do mesmo umbigo, da mesma forca sem laço, da mesma vértebra desconjuntada
anda correndo, atirando-se ao futuro, mas não há como desprender-se do hoje que o aprisiona.
Vasculha em vão a chave de uma nova porta
com mãos de quem não move uma grama de barro.
Assim continua inoperante seu trajeto
já que a cada passo, está mais próximo do mesmo lugar.