13/12/2009

não quero, nem espero
já que a sentença adverte
triste é a voz que nos dita:
- Dezembro já se perde!

então que venha
do sujo,
do fraco sem juízo
e diga por meio de sementes,
pensamentos em músculos podres -
o quanto essa vida é pequena!

enquanto homens estivermos
todo o céu, inda que distante, parecerá imenso.

salvo por suas eletrificações, vagina maternal de estrelas,
que reacenderão por todas as noites,
nossos malditos erros.

09/12/2009

Brasília, 19 horas
agarrada às asas do boing
de gravatas grita: - Fica!

Côncava, plana,
central, estranha, via deserta.

Brasília é a Barra da Tijuca à noite,
embora não saiba.

Brasília desdentada de ônibus-trem-elétrico
voltando.

Brasília é moderna,
embora não caiba nela mesma.

Embora não saiba,
é luz de abajour intelecto
janela sóbria em pequenos prédios - pulpitos suicidas.

É astrofóbica, filosófica...
- É coisa-e-tal, saca?

Brasília é mais cedo,
bala de festa.
Mais-tarde deixa Brasília tonta;
gira Brasília sem braços.

E Brasília têm filhos
e pais separados.
Aguarda adoção.

Brasília ambidestra.
Fala alemão, engole facas.
Agarrada aos fios, é uma criança pedindo colo.

Brasília tem nome,
ora não tem.

O céu quer Brasília mais alta,
chama por ela, que
nem da janela pisca.

Brasília é uma curva desfeita.

Brasília é alcoólatra, posta por conveniência.
É uma prancha e dois pratos.

Brasília é ela.
Que vai embora e chega,
retorna do inferno pro inferno.
Pra outra Brasília
que nunca pisei.
Distinta dela mesma,
de seus detritos.

Brasília que nunca estive,
e já nem sinto o quanto a amo.

Brasília ruiva, hippie e bela.

Agora,
Brasília inteira
é uma curva.

(2007)

14/11/2009

Aprendo a ser melhor
que a cabra
que a ferramenta na caixa
que o dobre d´água.
Sendo pior que eles,
não sendo nada.


Aprendo a reconhecer o mau
nas aranhas que me esquecem
nas pessoas-porta-retratos que os suportam
os porta-retratos, sendo pessoas.
O mau que urge nas silenciosas caras
que aflige famílias, doenças graves
Aprendo sendo melhor que ele - o mau,
existindo como pessoa
despregada de paredes.

Aprendo a ser mais forte
que o sino
que o mar na manhã trêmula
que a faca sobre o dedo da velha
sobre o peso das costas
que a corda bamba de mendigos
muro de alcançar baixios.

Aprendo a ser mais
sendo menos,
tênue fio que se estanca.

Aprendo a resolver o meu medo
no escuro
mergulhado num mar de cinzas sonoras
tubarões e sacis me perseguem
agonizando entre terreiros de macumba
capas negras e vermelhas sob a fumaça dos caximbos
a orca, o vizinho queimado vivo, o desenterro do amigo
olhos mortos na pele que devora o riso.

Aprendo a ter coragem
não tendo, deixando que o monstro me alcance
tornando-me algum tipo de monstro.

Aprendo meu delírio
vivendo-o
no duro concreto da mais absurda realidade
meu mastro fundo, falo!
no ácido que me toma
estrelas-irmãs
telefonemas solitários
tudo pra um dia que não existe
Aprendo a delirar delirando
rasgando o que me parece ter algum resto de delírio.

03/11/2009

Paixão é mata-mata,
mas se joga à brinca.
Amor é à vera,
mas ninguém vira papa.
Logo,
nunca termina.

19/10/2009

A palavra precisa ser escrita novamente.

Vide a palavra que voa: pipa, balão, gaivota.
Voam dentro, escritas numa folha.
E a folha na forma de cada uma delas,
pode voar.

Ou quando riscadas na areia
onde o mar em tudo invade.
Livre! Cada letra se perde, livre!

Aqui não há.
Luz? Não creio.
Um reboco estranho, sem vida!
Um pensamento que não temos, não seguramos.
Um sentimento que não fica, escapa.
Desencarnado em tudo me parece.
Vejamos: podemos trocar a fonte,
deletar, mudar a cor, negritar, sublinhar... mas onde?
Em que espaço? Onde estão?
São "sins" e "nãos", "uns" e "zeros".
Não merecem elas uma jaula tão branca.
E num apertar de botões desaparecem.
Trilhas em discos?
Não, não são palavras.

Tenho defendido!
Precisam do peso da mão que escreve,
da tinta que se perde, o grafite griz, o carvão, o gesso, o giz!

Vejo a folha que queima, temos o fogo!
A folha borrando na água, um quadro!

Palavra que se mostra: garranchuda, apressada!
Forte, torta, reta, fraca... viva!

Toma forma qualquer que exista, pode!
Toda palavra merece mais!
O mais é ser escrita!
Assim nosso amor aumenta,
nossa paixão se infinita.

Quando se nasce pro instante,
o futuro é virar-se pro nada.
Poucos pruma vida diletante,
muitos pruma vida apagada.

Há sempre alguma coisa entre as ferragens
dolorosas do dia a dia.

Matéria que circunda e amolece qualquer espécie de aço.
Nem sob a friagem da noite, ou sob a febre diurna;
sempre nos devolvendo a calma e alguma luz aos passos.
E se eu dissesse que o amor não tem nada a ver com isso,
a única verdade seria: - Estou mentindo!
E é você!
É você essa pessoa, ego, imagem, existência, lume, carne,
que me faz ter a breve ciência de coisa tamanha.

(depoimento)

17/10/2009

A maior altura para a criança
é fuga de balão.
Tanto que nisso congela-se o tempo.
Exceto quando o fio escapa nos dedos,
pois ali, tudo gira em
slowmotion sem replay.

Risco um deus no estalo do fósforo. Depois de acesa uma das bocas do fogão, expio o milagre. Um azul-céu-de-tarde brota no amarelo, logo uma madrugada inteira de matizes. De perto, a madeira parecia ferver antes do fogo, antecipava um trilha de prazeres. De certo, milhões de explosões minúsculas, centenas de poros consumidos, dando lugar ao negro. E se pudesse ouvir, seria como passos sobre as costelas. Reduzi o trecho num pequeno achado: a vida risca assim, dessa mesma forma, cada pedaço de tempo, luminosa e quente.

Enquanto a água iniciava a fervura, comprimindo-se em partículas, voltei aos dedos. O saco de chá aguardava-a, salvo pela corda, salvo pela ciência de tramas de barbante. Na minha mente você anestesiava o fogo, anestesiava o negro e qualquer deus surgido entre a carne-madeira e o consumo de tudo. A televisão não sabia de nós dois, não entendia o que era você, por isso continuava sozinha com todos os outros móveis do quarto, numa conversa de fantasmas. Minhas meias também não suspeitavam. O fósforo entre meus dedos apagou-se, aguardei que beijasse minhas unhas, mas não foi capaz de desafiar minha carne. Queria no toque, voltar ao mundo, certo como uma queimadura exposta, mas você havia amanhecido morta. E quanto a morte, nem milhões de fósforos acesos queimando, religariam seus olhos, acenderiam seus gestos. Deixei então a água cair na xícara. Uma expressão desterrada pareceu mastigar-me a cara. Devaneios soçobraram entre o chá preto e a corda-salva-vidas do saco mergulhado. Poderia içar teu corpo como fiz, mas de vida ninguém se molha. Poderíamos estar salvos, mas onde agora? Apaguei então a esperança. O agora é um tipo de morte homeopática.

Por isso, peço que me façam esquecer, que me esqueçam. Antes do fogo, sabia o homem do breu. Mas este fogo que é o homem nunca soube do fogo que é o homem, por isso se apaga sem reconhecer nele o mesmo breu.

Sei de você partida num buraco de cimento. De sua casca retiraram os vícios.
Separaram seu nome. Partida na forma de uma folha grudada à calçada.
De uma vez por todas apagada, como só uma noite pode ser.

Desliguei a televisão no quarto, tomei o chá que estalava.
Permaneci calado pelo resto da manhã, como um balão desaparecendo na direção do mar.

Encanto a cor
que de um silêncio brota.
Acaso é flor
a dor que não se nota?

Amargo restou
o pó sobre a resposta.
Apagado qualquer amor pode durar mais
que sua aposta.

16/10/2009

Amarei como pedra, poeira depositada.
Decantado bojo para a morte do outro
tornarei a saliva num livro de esmeros.

Assim me dirá o espírito da terra:
- Sois o novo ancestral da palavra.
Pois terei amado em exatidão,
na circunspecção de lobos pela fome.

Assim me será cobrado o amor.

Como devoram as tardes sob o zinco.
Como o breve tombo lancinante das estrelas
para o cerne de um vaga-lume roto.

O cercar do dia
em meio a tumbas.
Só este amor para desenterrar-nos do filão de germes.
Com estas unhas roídas, cato insetos da mãe língua.
O poema zune outra vez!

Meu palpite é a voz das cigarras.
Meu gênio que para o fim sorriu numa das pernas.
Minha pele, qualquer prospecto de um sol rubrico,
contudo, ressoando seu tempo.
Será a esfera perfeita,
o assomar de coisas que nunca tivemos.
Nenhuma dúvida persistente, além da liquidez do agora!

Este amor para com tudo, me servirá de lóbulo,
onde sangrarei à primavera.

27/08/2009

Fere o rio à lua, num dardo cruel e impetuoso,
onde qualquer amor pode boiar
branco e morto.

Não pude reparar na morte
o canto dos olhos
a boca viva.
Ele me pára, diz que recebera um telefonema.
Antes do café, depois do banheiro; acendido o cigarro,
um telefonema.
Ouviu meu nome sem pressa, as discriminações.
Antes de sair de casa, leu as manchetes,
sabia que eu não era nada que os jornais dissessem.
Vestiu sua túnica negra.
Na garagem, junto as caixas de fotografias,
buscou sua foice.
Ainda que nova e amolada a lâmina,
reparou sujeira vermelha e grossa da labuta de ontem.
Passou-lhe um perfex umidecido no veja multi-uso,
refletiu seus gomos negros; não era um riso certamente o que brilhava.
Partiu pra rua.
No caminho ainda comprou uns chicletes,
reviu umas contas com o açougue da esquina.
Pronto.
Bateu minha porta às 08:56 de uma manhã de quinta.
Reconheci seus passos à escada.
Estava amparado pelas teclas que fincavam sobre aquele espaço
algumas dessas pequenas letras.
Me chamou pra fora, como um grupo de evangélicos domingo cedo.
O sol não parecia estranho.
Nada parecia estranho.
Não pude reparar na morte.
Mas não é que ela me parou?

25/08/2009

13.4.09
"A vida, éter-na-mente"
Não o que dança firmemente,
este sabe bem onde pousar os pés.
Pois basta que a lua tarde, e já se faz manhã dentro da pele.

Motivemos então agora,
o que de menos limpo e novo há nessas taças,
agora rasas, que antes moldaram o melhor do gole:
suaves paragens de andarilhos.

Gole hirsuto e largo, vasto - tão que o bocal partiu-se em pedacinhos
e foi-se como vão os passarinhos
em cada osso e vértebra aninhar.
São mais que peças que te pregam teus amiguinhos,
pois estas pequenas aves não te negam.
E mesmo tu sem penas, já te ensinam a voar!
Porque é preciso homem!
E impreciso como tudo, mas é preciso - sempre! - No fim saberás!
O rio está sempre a inventar os mares.
E mesmo que te esfarele a face num vôo tonto,
toma, podes tomar como tuas as filigranas deste sol por de mais gasto.
Ainda uma brasa assim quase que morta,
pode bem explodir em fogo um grande pasto.

Basta então amigo,
que te relembre desta ilhota de paixão!
Eis que seja teu único brinde talvez, que propôs a vida.
Mas verdadeiramente!
Nada pode ser mais dúbio que a verdade.
Estuda com tua alma, ela não pesa.
A calma é mãe do desespero, saiba.
Não temos tempo pra tantos mapas.
E quem se perde, há de achar novos caminhos.

Vai!
Estende-se pr´além do corpo.
E com grandes olhos busca teu troco,
mas não o contes enquanto o tomas.

Ali, no final deste reduto cristalífico, expande-te - posso e digo!
Verás teu corpo reduzido
ao corpo comum de qualquer homem.
E talvez, se assim conseguir e puder, faz como eu, chora.
Chora que a vida é mesmo breve,
tal este olor pequeno em cada gole.
A vida é éter e se esfuma leve de vento em popa;
é breve assim como este vinho e evapora.

14.4.09
"CTRL Z"
Editar
a sede.
Derivar do seu,
o todo.
Deles, o fruto lasso -
reles.

Editar o oco
no espaço branco do nada
elevar ao centro,
culminar abaixo
mais ainda,
naufragar o nulo.

Retesar o gosto
aplainar o rosto
gasto,
acre, doido, num rasgo de quase
e passar adiante o célebre
do recomeço,
sim
dizer não
sim
pra frente, sem pensar.

Editar o amor,
prensar
no plano do apago:
devorar, deletar o dano
acabar por causar todo descuido humano
e crivar do negro a fonte vaga
deriva-lá ao não-cursor,
o rio destro
abominável, lastro incompreensível
cega leitura
página aplural de universos grãos de milho
letras roídas, obesas
fontes novas, ovas, lidas, indo ao fosso
e o intestino fino,
delegado ao grosso, mal educado.

Editar o curto
alargar o vulgo - seu ânus casto da rolha
despe-te dos salmos tal enganos
andas e comes teu silêncio
de espaço em branco, e nada.
Nada, que o mar é amar sem saber de onde.

Poemia!
Por ti zil regressos.
Por onde sempre recomeço,
sem ter jamais partido.

9.3.09
O que é do tempo, ao tempo torna.

Vejo teus dentes. Competem
com tua boca. Repetem
o mesmo riso afável e amarelo
da pequena foto.
Grafada em cores um tanto velhas.
É você lá.
Quer dizer, tu fostes aquela menina loura.
Tinha uma praia amanhecendo nos olhos,
cercada pelo quarto que já não existe mais,
pelo menos não ali, agora.
Porque tudo se foi,
tragado, devorado por abelhas e mosquitos sazonais.

E no que não és mais,
apaga-se outra noite.

O amarelo fugiu dos teus cabelos.
Não é pra menos,
a vitória é ainda estar por aqui.
E algumas coisas vão se enrolando nos fios.
Também perdi o pequeno e solitário Rafael.
Nada que o traga, a não ser essas lembranças fracas.



A chaleira nos chama pro hoje.
Ferve a água posta.
Vamos à cozinha, enquanto te rodeio
ouço teu riso viver comigo o agora.
E estalamos juntos algumas costelas de março de dois mil e nove.

Ficou no quarto a pequena foto com você lá dentro,
sobre o livro, sobre a cama - sob a luz.
Sobre teu ombro, o mesmo pedaço de lustre não resistiu.
Nem você!
Loura num carnaval, sorrindo outra vez pra quem quer que seja,
que naquela noite, dia, ou tarde,
pediu-lhe uma pose,
e posou também com a máquina fotográfica entre as mãos.

Sobreviver é acompanhar.

Deixemos que tudo torne, se é pra ser.
Sem que saibamos, claro - mas não sabemos.
Tomemos o chá, que já esfria.
Uma coisa eu sei, ou pelo menos imagino que eu saiba:
somos apenas o que fomos.

10.1.09
"Colheita"
O galo amadurece a manhã.
O urubu amadurece a morte.
O peito amadurece a faca,
que amolada planta o corte.

O preto amadurece o nada.
O silêncio amadurece o vão.
Do não brota a palavra.
O corpo apodrece a larva.
Do amor se colhe o chão.

"à granel"

Tente de novo
antes que o novo
seja tentado
a se tornar passado
novamente
acontecido.

x

Meu olhos jovens não viram o que era rude.
Só enxergavam num todo a leveza.
Não restou nada além da certeza,
de que o tempo é sim, um afiador de gumes.

x

Ousei
fotografei o poema.
Tanajuras negras no reluzente monitor;
Que entre o dedo e o flash, por um suave tremor
foram esmagadas.
Na foto brilhava talvez um quadro
mudo, grave e desfocado.
Pensei no ato:
Um poema pintado.

Vão-se as coisas
palavras e suas pessoas
nelas encarnadas
nada resta
e vão apagar a lousa
a palavra amor escrita às pressas
deverá morrer no verde escuro
e os teus olhos amor, que absurdo!
pularão para fora do tempo
onde estiveram tão atentos
agora sós
tão cabisbaixos dentro em mim
Vão-se as coisas
os carros alegóricos - fantasmas d´uma vida
passagens solitárias nas ruas daquele filme
você deletará os e-mails,
apagará as mensagens,
e as fotografias digitais
que pesavam tua caixa de entrada
mas existe o centeio bom e o trigo estragado
para acelerar a perda, aquela perda estranha
que não se sente e só nos resta o ausente
a falta que parece estar doente
bebericando alguma sopa rala
falseando os dentes,
e os leões de nossa culpa
sob o castanho sol africano
ai, meu bem... não somos mais que brisas!
Tênues, estúpidas e frívolas brisas...


R. Elfe, sem data.

"Últimas palavras"
Os meus?
Maus poetas!
Não andam por aí cobrindo falhas.

os amantes da escura escuna, de esqueletos,
vossos esqueletos, mortos - afundemos no verão.

os que não vieram,
não tiveram amigos ao redor farfalhando asneiras,
senão fantasmas de amigos que não existiram,
e a caveira de Cristo, senhor de todos nós -
mesmo que não queiram.

que não vieram, como Cristo,
mas amaram e morreram mastigando um ódio sujo de luz.

que não ousaram estradas turvas
pra dizer que foram turvos;
mas turvaram cada estrada marcada por seus passos
e desapareceram com a chuva.

que não deixaram de marchar pra morte
uma vez se quer, em toda vida.

e não escreveram poemas fáceis,
mas sonharam ser poemas fáceis.
e escreveram livros de porta de escola
desvendando os risíveis "poetas"
que facilmente se confundiam com poetas,
mas estes, jamais serão medíocres.
(não falo de pessoas que escrevem)

que não rimaram para não se assemelharem aos bons,
e rimaram pras urnas onde depositaram seus dedos,
com toda a maldade que Deus lhes oferecia.
e foram rimas inteiras, no sexo, nas traves do paraíso,
nas marcas da peste, nas antigas urticárias do espírito...
mesmo sentindo a maquinaria verbal enorme
e em segundos explodia, mil palavras iluminadas,
já rimava então, mais que vivia.

que falaram de Deus como uma força mágica
e tocaram Deus nas colheitas e nos invernos escuros -
e ninguém admitia, mas contaram histórias pequenas,
contra os pedaços de cabeças sitiadas.

foram deuses em cada inferno que inventaram
mas sempre com olhares venenosamente livres.
e jamais penderam da genialidade,
e da crença na genialidade.

e cogitaram duelar com qualquer um
com espadas de feno, olhos de tinta vermelha,
que chamaram todos para ver na lua seus escritos
e ninguém enxergava,
ninguém mais alto que eles.

que nebularam próximos,
tão próximos que morreram por longas distâncias.
e jamais saíram de casa;
e cuidaram dos irmãos, da mãe, das paredes...

Não ousaram brincar do que chamavam poema,
mesmo a pena mórbida que levaram até que o céu,
deitou sobre seus devotos ídolos.
que pisaram cabeças, que beberam cabeças sitiadas - novamente.

Os índios do oriente!
As crianças assombrosas!
nenhum deles fez com que o amor rejuvenescesse
mas optaram por navios de verdade, sem oceano algum.

que sob cascos e rascunhos de sóis, engendraram o cio real.
que foram os melhores amantes, com olhares de partida
que nunca ousaram suspender seus dedos temerosos contra a musa
dela, todo o ar que lhe faltaram, quando deixaram os primeiros
nacos de terra sobre os seus olhos.

Enfeitaram, queimaram e morreram, tão felizes...
agora, onde as flores gritam seus nomes esquecidos, escrevem poemas coloridos
acreditando e fazendo com que as cores sejam louvadas.
Qual de vocês pintaria uma flor?

"Agora 2"

Já ninguém mais lhe espera
filas de hospitais, reservas de restaurantes.
Ninguém mais te ferra!
Que passos de piolho burro!
Agora amassa o cão,
amai-vos vocês tão vãos!
Já ninguém mais te deseja assim
era tarde tão tarde que amanhecemos
Ninguém nas fotos abraçando-te
nem aqui, nem ali, nem em mim e nego.
E agora?
Que idiota vai te sorrir sempre?
Que imbecil vai te telefonar pra ouvir a tua voz - apenas.
Quem vai querer ver tua bílis golfada?
Quem vai arder por ti num inferno diário?
Quem vai vender tuas vendas tuas sendas imaginárias de algum porto lúdico
das tuas mentiras escrotas?
Quem vai ser o seu escroto e dor quando te chutarem?
É o amor meu bem!!
Quem vai vomitar tua cara no meio da sessão,
e levantar sorrindo suas pernas para lhe meter um taco de baseball
colorido te fazendo um filho?
Quem vai dizer que te gosta tanto que merecia uma vagina de cólera e
ligaria um fusca com tuas remelas vivas?
Sou tão inocente amor! Veja...
Aqui desenho tua goela.
Aqui marco tuas unhas... quero ser um santo!
Você trastejaria outras canções
não as minhas!
Quem te enfeitaria de músicas?
Compra outra moléstia... as minhas terminaram.
Quem?

R. Elfe , sem data.

28.2.08
"Minha festa"
Há uma festa - já me devora,
vem na brancura dos que há muito não sinto
é toda dela a dor que me aflora
e a canção sem tom que só, danço em labirinto.

Da vesga fome me acelera
em andar pálido desalinho
ruindo em gracejos de marujo magricela
ao ar vou devolvendo bruto o carinho.

Sou dela o vão dos que mortos cospem
o dourado feno de um sol que nasce
deles, túmulos, por mais que mostre
mil vielas medrosas queimam na face.

Das palavras às palavras - minto
essa festa é o sangue todo deitando
vãos teus cães me adornam afoitos
como estrelas num céu de orelha e brinco.

A morte nos iguala - e sabes
que teu amor, rogado assim só,
não é regaço
precisa dos outros
e de muitos outros tantos
pra tornar o mover-se em amor,
desses que movem
e batem no peito, pra ser amor daqueles,
sem prantos.

(25 de fevereiro, 2008)

20.2.08

“Matéria da noite”

A matéria da noite é roseiral provendo cheio da noite e da rosa que a oração mapeia
os olhos cegos deitam-se irmãos, e são cavalos magros de cara
a matéria da noite não topa, nem se golpeia
reluz como reluz o escuro dela dentro dela, pra outros escuros
como adentra no tempo sobre ele e pra dentro dele, incertezas e ponteiros
comendo noite, travesseiros
a matéria da noite ao relento serve escada ao céu que gira
é o fantasma mulher que foge aos berros e ateia fogo nos cabelos
a matéria da noite vem do leite que bebem cedo no café, cheio dela com o cheiro deles
a feira que explode às quartas na rua pequena-subida
pira que acende estrelas, matéria insalubre
a matéria em desvãos dela que é a sina de ser densa-escura
não há medidas entre luz e homens, cidades escondem-se nela
a matéria da noite hipocondríaca, maníaca repetindo nomes
é irmã do filho que roubava crianças, novos rins que florem
e na absurda e completa vez, a vez dela é de ser matéria e descer em tudo
travestindo noite e segredos surdos
a muda ossada que envenena a fumaça dos canos que largam em nome de Cristo
espinhos de matéria da noite, a testa que deflagra o culto
dançam irreais, carnavais e vampiros - corrimãos sem luz descendo do décimo sétimo
amanhecendo na calçada, sem nenhum cometa na saliva
comentando sozinho de ouvido a manhã de silêncios que alguns olhos amaram
na matéria da noite trituram-se, dela deriva qualquer volúpia
nenhuma réstia na boca do ácido da noite violenta que espera, a matéria
da noite é sedenta dela, de sede que sede gera
veia sufocando delírio, paixões surgindo nos becos
ela resoluta, matéria da noite, da noite que não tem matéria, por não ser nada
fenômeno de astros, hollywood de mentira, mas que morreram jovens
com suas cabeças de índios nos espelhos da rua 42, ondas de suor santo
e a matéria da noite encavalada, regurgitando fálica do jazz morto em setenta e dois
e morrendo nos seios jovens entre cassetes feéricos
qualquer arregalada de olhos pode ser eterna, fuligem, eterna, matéria
a noite não se presenteia, não vaga comigo, beija-me num ódio, defendendo sua boca
rasteja pro caesar park da avenida mil e três de acesos olhos de guria pedindo troco
devotos de qualquer santo, a puta na parede fazendo cara de matéria da noite
o preto vendendo branco, o branco pagando o preto, o preto ascendendo
rádio patrulha da noite de matéria ipanema, de matéria copa, cinta-liga de ferro
matéria de noite no dente que cospe o dinheiro cheiro de cerveja e pólen
de aurora quente adormecendo na areia da praia da matéria da noite sacolejando uma rave
as redomas de estrelas da matéria da noite frias, desejando nunca o eterno pra sempre
e as que dançam em filmes americanos quando tudo está ok, beijando com os ombros
metralhando fotos, pedaços de carne, com cérebros ocos de carro e fama
a fama que ditam os celeiros de molestadas mentes, matéria de noite em jornais
anais da coisa negra que fazem nascer, brotando flores de forca e jardim de guimbas
matéria da noite em casas novas, interioranas, cheias de vida, cheias de tantas coisas cheias
matéria da noite nos comendo, varando especulações irradiando especulações nas bolsas do mundo
matéria da noite morta, na porta do empório suicida, rostos pacientados, ornados dela
matéria da noite morta, nas costas da faca, do ódio que lacera a alma, brotando amor
matéria tonta da noite temerosa, fuligem do sono, olhos que engendram manhãs coloridas
matéria tonta de noite, tonta de tudo, tudo que se perde
cenas dos últimos capítulos - a reprise inédita, matéria da noite escolhendo cartas
fazendo compras pro sexo dos ex-amantes que se casam pro sempre de quase nunca
matéria da noite que escrevo em solavancos no peito e tiros nos dedos
matéria da noite que se perde dentro do que é, noite de todos nós, orando por Deus
Réis, reais, real, cumprindo a solúvel matéria de que se deve cumprir, matéria
insolúvel pensar que devota um coração nos peitos desertos - umbrais da igreja
matérias da noite que fogem, chorando pra salas de televisores acesos, chamando moscas
Hitler sorrindo devora um livro em segundos, matéria da noite nos lábios, no bigode - foice e estrela
matéria da noite cadavérica, criança leprosa chorando de rir na escola de afazeres mórbidos
o fantasma me observa redigir a matéria da noite, o cão chora por dentro
não choro mais, ninguém mais
chora a matéria da noite em berços de ninar gasolina e óleo de cozinha queimado
chora a matéria da noite nela, que me deixou vencer o medo de sofrer e me deu-me a coroa de ossos
chora a matéria da noite fumando Sinatra e o demônio dorme acendendo o mundo pelas pernas
chora de ser matéria da noite, e chora quando me ouviu metralhar o plástico, urina
binário coração monetário e vácuo de desejos que se esvaem por dentro dos bits
matéria da noite invadindo redes, as paredes dos escritórios cheios de negras imatérias
matéria da noite invadindo carteiras, enfeites, juízos, Renatas, magricelas contando deveres
matéria da noite convulsa enraizando tatuagens como o vulto que minha mãe mostra ao cruzar o quarto acelerando o medo
o escuro na matéria da noite chorando de luz que acende e apaga a lanterna girando no centro da sala, ouija-board dos kardecistas que morrem cada vez mais cedo
a lanterna que acende seu rosto dentro da matéria
da noite dentro de mim riscando um peso que não leva pra escola pra defender-se dos marginais no caminho
matéria da noite densa que de tão densa flutua o mar morto e os cavalos sem caras em sonhos que conspiram
nas fazendas nucleares que criaram galinhas sem cabeças, sem ovos, sem misérias de dedos cozidos em marmitas
nas fazendas nucleares que já estão nascendo da matéria da noite evocando águas e corujas em fios elétricos
fazendas nucleares que brotam ovelhas e jesuses cheios de formas cilíndricas
matérias, matérias da noite, matérias que chovem matérias em fazendas
que cospem bits, que cospem bytes, que aceleram o crescimento dos tomates nas cercas
os cervos que engordam involuntários que morrem involuntários dentro da matéria da noite tácita
cheia de outros sabores menores, cheias de outros maiores
matéria da noite caveira, matéria da noite oxítona, atônita, alérgica
matéria da noite morta que chora por seus mortos como chora por seus mortos que choram por ela
matéria da noite cheirando gases
flutuando entre o que fora e o que pudera ter sido, matéria da noite cozinhando
despelando ratos pra jantar na praça, junto dos corpos da cólera das fazendas nucleares
junto dos ratos subindo nos pratos das fazendas nucleares cheias de cobras comandando tratores, jatos infantis
matéria da noite que jorra matéria da noite que jorra olhos de lagartos sem rabo sem bichos pra comer
matéria da noite entre vozes sem ouvidos, sem orelhas que comeram as cobras das fazendas
o fantasma sorrindo em solilóquios terromicidas, nova iorque de um dia ameno às quatorze da tarde
os boings que fumaram o céu antes das quedas nas matérias das noites evocando
o silêncio das marcas nos trigais extraterrestres centopéias comendo feno e brincando de velhos aposentados fazendo armas pra matar homossexuais
jogos de armar em duques aquedutos, vias terrenas de vidas na matéria da noite matéria da morte da noite
matéria da noite da morteda vida da matéria da noite que não tem matéria

estamos todos por dentro, dentro...





1.1.08

Num dos vagões do trem negro
Ninguém sabe...
ele escondeu - como se soubesse.

Em pequenos segredos -
os que sobrevivem

Pontes inteiras de amônia
cruzando espartilhos siderais
as irmãs menores observam -
ele atravessa devagar
cavalgando o furor de plástico
O que ficar, pode ser pra sempre.
Mas nada dura.

Um sobre o outro -
pequenos segredos,
os que sobrevivem.

O que ficar pode ser pra sempre.
Mas ninguém sabe.
No fundo, ninguém sabe.

(13:09)


Milhares de ingênuas razões
lagos de um sangue estranho
Era você! - agora mesmo...
já não é mais

O travesseiro afunda tua cara
nas margens sombrias.

O que é o silêncio?

É quando você acha que tem alguém,
e você já não tem.

O gigantesco trem-carruagem-cavalo atravessa os pesadelos
Desemboca na luz completa do sol,
onde Deus dá suas cartas
Quem blefa?

Eu quis voltar mais cedo
aprendi o que era tarde.

O que pode ser pior
que esse beijo quente?

A nuca espessa sente a ferrugem toda
destroços na luz.
São migalhas.

(13:13)

11.1.08
"Numa caixa"
Cheia de funduras
ouro d´escuras aranhas
e o guindaste verde cheirando ouriços-arranha-céus...

ela-lá cheia de tralhas luminosas
fitando a bandeira de cal azul no topo
do armário,
aquele monstro negro que nunca escalei.

Esbarrava em clarões de pintar céus,
espinhos pra fechar feridas
Vasos de para-peitos nus
que o precipício vão de tuas mãos velhas
não trouxeram-na.
- Bença Vó!

Eu nascia lá dentro
pra recuperar o fôlego do café e o pão de outrora.
Fora, era lá fora, a tarde se fazia em pinho - zunia
noutras vezes, meu velho tio zé respirando
fazia barulhos de canoas barbeando sal
e eu que pensei nele tão morto - e realmente estava.
Sua morte havia morrido pra mim,
e percorrera a distância erma
do esquecimento.

Eu que não carrego vagões nos cílios colados
nem roupas largas de quem se foi
vejo minha infância num trem tardio
- apitando vago e cego
ninguém olhando pra trás enxergaria

dentro dela
estão meus pés
menores, sem pêlos
pequenos pés de cortar manhãs
que me vacilam nos olhos as cores sujas - rubras
ninguém olhando pra trás enxergaria

eu diria ao menos, se ouvisse
aquele menino chamando meu nome
e a casa não estaria morta nas mãos da árvore
nem o retrato mudo, respeitando o silêncio
eu crescia...

eu crescia pequeno, como franzindo olhos
pequenas tralhas encolhidas na caixa sobre o armário
aquele velho monstro negro que nunca escalei.

20.5.07
Rafael Elfe
J a z z i g o



Quando eu morrer,

paguem aos violeiros, os mais antigos

pra na fumaça das violas

meus restos evocarem...

Dêem meu violão ao primeiro menino pobre que surgir...

minha alma vai estar lá dentro,

e ele vai saber exatamente o que fazer,

eu já tive a idade dele...

e também nunca tive um tostão.



Façam chorar o couro dos banjos...

Deixem voar os corvos!

As galopadas do bumbo

me levarão junto às rodas marginais de blues,

e saltarei de dentro das gargantas dos que cantam com dor,

onde eu me ilumine.



Deus está em cordas novas!

Deus está em meus acordes!

Deus é minha voz dizendo essas coisas...

Minha poesia!

É o breu e a luz!

É a rabeca chorando...

A gaita que rasga!

E eu sou o breu e a luz.



Digam a eles que eu não volto mais...

peguei um trem que vai pr´além de mim,

pr´além desse mundo de fábricas e feriados...

e mesmo quando tocarem o último acorde,

enfim, continuarei por aí,

rolando e assobiando com o vento.

CORRENTEZAS SUJAS - I
Tudo bem mermão! Só não me encosta... - me estico na cadeira de molas espreguiçando um vácuo. Algum facho de pensar vai levar esse troço todo pra longe, eita peso danado! Já me fartei dessas contas. Nenhuma idéia é convincente até que passe gritando ao lado, no barco alheio, de calças-arriadas-mostrando-a-bunda-branca-de-fora, rabiscada em batom um - Foda-se! vermelho. Assim me veio na cara essa idéia do Chile, que me espera de alguma forma, por alguns segundos e dias e horas marchando por sobre ele - sem um tostão é claro - em qualquer uma daquelas bibliotecas antigas cheias de poetas novos mortos com olhos de tigres do Atacama. O caminho é o Chile! Até lá tantas coisas pra ver sem saber que vi ou sem entender pra que arregalar a tanto a vista. No fundo é me perder na américa mais latina que há – cansado des´ser tão latino. Porque latinidade é south mermão, tudo que é sul é pobre, tudo está pra baixo abaixo e debaixo de tudo, como se a bússola tomasse forma do dedo inquisitor de Cristo. Tudo bem mermão, já te falei! - devo parar de beber porque meu fígado resmunga mais que minhas tias juntas falando pelos cotovelos enquanto fumam entre dedos carnívoros e peles de puxar bochechas, um cigarro mata-rato desgraçado, e cospem sobre todas aquelas coisas de tias velhas e resmunguentas. Vou deixar de descascar abacaxis pros outros agora, e abrir minhas próprias portas, e quem sabe não me veja sorrindo pra mim mesmo numa delas, sentado à luz de Nietzsche, cheio de dentes concisos, cheio de pelos louros lindos entre os ricos colares de pedras de mármore do Casaquistão dos livos? Algumas revoluções começam no fígado. A minha tem começado, minha bílis começou a confabular um livro, talvez o novo manifesto, eu chamo de água barrenta. Ainda vivo me traindo, querer a morte por aqui é besteira, já se morre vivendo. E em que arte? A vida agora tem risco de maçã vagabunda, e temos qu´engolir na garganta sequinha. Qualquer coisa eu mudo de canal e fecho os olhos. Mas o Chile... é sim, o Chile ainda é o caminho.

11.12.07
"Manhã expressa"
A espuma do café
risca a manhã
em teus lábios superiores.

Sopramos na ânsia
um beijo.

Toma-nos densa a espuma
frase em meus lábios - fica
e já não vejo
nos teus,
nem espuma
nem beijo.

Sopramos a manhã
no café.

Expressos,
passam por nós:
a ânsia, a espuma
e o desejo.

22.6.07

Provérbios "ultr´humanos"

"O ato peremptório pede um final ausente."

"A rosa que escala o inverno,
vem nascer na lama."

"O espinho que fere o menino,
é o espinho que serve escada aos insetos."

"O menino é um inseto no retrato antigo,
o retrato antigo é um inseto morto no quarto."

"A rosa que marcha para o alto não é rosa apenas,
é um soldado, rosas não marcham; e nunca rosa, apenas vermelho."

"As cores se inventam, assim como primários os cães sob as rodas, vermelhos."

"O vermelho é o amarelo do sol junto ao magenta do homem."

"O marrom é o fumo descabido e o rim aberto sob luzes fluorescentes."

"A casa está para o corpo, como o copo de chope para as bolhas."

"Meticulosos são os dedos de Cristo, infalíveis os dentes do demônio."

"Pequenas mentiras se contam sorrindo, grandes verdades chorando."

"Quando o mau em miligramas, o bem em átomos."

"Paixão: em tudo é preciso; mesmo sabendo que tudo há de se tornar impreciso."

"Melhor saber que saber de cor suas qualidades, é enxergar nitidamente seus limites."

"Ela precisou morrer algumas vezes para exemplificar aos filhos o valor da vida."

"O homem cuja arma é o amor,
jamais encontra adversários à altura, quando numa guerra soldado for."

"A lagoa que somos precisa de sombras para que não nos evapore por completo o sol."

"És de tamanho igual ou menor que meus punhos cerrados,
mas possui mais liberdade que todo o meu corpo."
(aos pássaros - às portas de uma penitenciária)

"O poeta está sempre a se casar com a vida,
mas segue por ela eternamente apaixonado pela morte."

"Poetas nascem póstumos."

"Tudo o que precisamos ouvir, já foi dito, reescrito, pensado, diluído...
mas não da mesma forma. E é o poeta este gerador combinativo."


5.11.07

Lá Se Deram...

Não trovejei um segundo
não fui tempestade, nem sol
arquétipo de inverno trancado
e detestava as mais bonitas
era um ardor ser parte do grosso falatório
em que as bandeiras de maio inflaram
foram mais alto!

Reverdeci dessas cinzas, minas hercúleas...
meus risos me ataram
eram lenhadores enormes, fazendo sombra
algúrios que cantei mais baixo,
pra dormir repentino
e nada ser repetido,
muito menos essa vida cheia de vales.

Eis que parto prum sonho:

"Azaléias, mármores lunares nascendo
mil navios do futuro, balsâmicos
sob à minha língua sintética
um quarto de outros enormes sintetizadores
e a lua pareceu maior, menos morta...
Lá Se Deram em mim as vagas
areias cobrindo olhos, d´alguma foz ou gruta
cruzara no alto, um pássaro cinza - no instante
infâmias! eu, menor, cada vez mais...
chorava o indulto, nem pensava o quanto
acorrentado aos pés do céu
me atormentavam os riscos rápidos
das estrelas... fotografias modernas.

Lá Se Deram...
e fui ter comigo um papo eterno...
mas ecoaram sobre os ombros
minhas tétricas falas:
- Não! Não é a lua que se pendura lá, não é...
Não percebes? É um furo! Sim! - e ria medroso.
É um furo besta e ridículo,
mostrando a ponta do que há por trás!
Luz maior, pronta à nos cegar!
Não percebes? - erguia as mãos tentando rasgar
de vez o pano negro que cedia...
A lua é um buraco no céu! Não percebes?
É um buraco...

6.11.07

Trecho

"Logo, a poesia tornara-se o poeta,
e o poeta a poesia.
Tornara o verso, uma mecha de cabelo,
uma estrofe algum gesto - sorrir vazio no espelho.
Logo, nasceram-lhe galhos, ramos e uma roseira.
E a poesia figurava no homem, assim como o poeta nas videiras.
Logo, a poesia tornara-se o poeta, amargamente,
e o poeta inteiro a poesia."

(publicado no Sem Digitais)

Impressões

Não tinha nada a ver com isso. Ninguém tinha. Mas elas estavam lá, no meio da manhã sem dia, no meio do pátio sem pátio, dentro deles, que estavam lá, no meio delas, fora dali, dentro do ciclo que, invisível, nos tangia. Não tínhamos nada a ver, mas tínhamos. Elas estavam lá, no meio da manhã, no meio do pátio, dentro, livres, presas... Eu estive lá no meio delas. E no ciclo delas no chão, de joelhos, rimos, livres ali dentro pra rir se quiséssemos. Outras não. Outras fumavam, desencadeavam encadeadas, falas que num ciclo menor se perdiam. Outras não. Outras desapareciam, dentro de pequenos rostos, outros tantos - sumiam. E eu não tinha nada a ver com isso, mas tinha. Estava dentro delas, ajoelhado, desencadeando risos, rindo - livres, se quiséssemos. Mas não tinha nada a ver com isso, mas tinha, nada a ver, mas via.

Depois de mais uma visita ao JLA.
(Instituto feminino de correção para as menores infratoras)

12.11.07

Remendos

Eu não dobrei as roupas, nem fiz a cama atrasado de olho na janela esperando o ônibus. Nem abandonei o copo de café pela metade, com a colher mergulhada pra mexer ainda o açúcar morto no fundo do copo. Nem dobrei o pão pra morder em duas vezes, quiçá uma. Fui deixado pra trás naquela manhã cheia de rodopios. Eu não fitei de cima meu corpo lá embaixo queimando, deveras, eu era um balão cheio d´água descendo do sétimo andar. Eu não resumi num segundo o papo de um dia inteiro e disse tchau com as costas, mudo. Minha mãe não ressentiu minha não presença, acordando com o som do portão fechando às pressas, nem com o silêncio estranho que explodiu depois. Fui deixado pra trás naquela manhã aberta, uma ferida concisa cheia de luz, a ruidosa luminosidade inicial de tudo. Dentro daquela manhã pequena, fui deixado pra trás, como uma lesma remoendo pedras. Os relógios denunciaram minha morte, às 8 e 45. Demitiram meus olhos, incineraram minha cara. Fui largado no carrocel d´água na pia da área de serviço, junto as roupas de ante-ontem e aos desejos de vida e sorte. Fui deixado pra trás na luminosidade estranha daquela manhã. Meu corpo removia-se antecipando o coito celeste, em esquinas de tempo, cruzaram adeuses. E a manhã corria cheia de pressa, e pregado no sofá, morto como o açúcar no fundo do copo, eu denunciava o que nunca havia sido.

22.11.07

Frases que sobreviveram pra contar...

como foi o encontro do Presença!

"Somos muito pequenos pra tanta poesia."

"O vinho é uma navalha."

"Ainda há amor?"

24.11.07

Nada posso quanto ao poço.

Não aprendi acordar cedo. É uma prova da alma, lastimável até. Um vestibular completamente fora de hora, e eu sempre atrasado. Mas, como de costume, fui içado de sonhos abomináveis: chuvas torrenciais, enchentes, pessoas morrendo, trombas d´água, beijos afogados... Arregalei os olhos quando ainda lá, fui tragado por um poço travestido em poça d´água. Logo depois num golfo, como se voasse e voei, fui retirado. Foi quando percebi que a ponta do cobertor tocava o chão e, já tomada pela água da geladeira em degelo, intumescia. Um rio largo, desfilava do chão da cozinha, circundando o sofá sob a janela, até meus pés, agora quentes sobre o chão tenso e frio; como se toda aquela água tivesse jorrado de meus olhos, boca, ouvidos... Tive a leve impressão de que, se não acordasse àquele instante, morreria afogado pelas dobras úmidas do cobertor, como pequenos dedos enrugados.

Ainda tropeçava em sombras pela casa, quando percebi o ronco da sala, respirando, minha mãe ainda dormia. Meus irmãos estavam longe, no quarto. Um deserto se estendia até lá. Eu ainda era o filho, ainda era o irmão mais velho; de alguma forma me confortava saber. Estirei-me para o banheiro mais próximo. As sombras se multiplicavam pela casa. Meu medo era uma faca cheia de manteiga pronta a me acertar o pescoço. Nada demais pra quem, minutos depois, usou a mesma faca para abrir a caixa do leite e emplastrar o pão.

Com alguns livros prontos a serem devorados no parapeito da janela, reparei na cor da manhã. Repentina luz que rebentara, sem que meus olhos guardassem o ato. Cinza? Dentro do verde das eras que nervosas cobriam a janela, era branca e incisiva como o dedo escorregando até a virilha. E esfregava os olhos pra torcer o cinza e ajeitar um nome àquela luminosidade vaga. Nisso especulei sobre qual livro abriria meu dia. "Humilhados e Ofendidos" me veio à mente - saímos da confeitaria... o velho morrera, seu cão morrera; alugamos o quarto do velho. Não. Não queria àquela hora, adentrar o quarto do velho morto. Nem esperar por notícias suas em outros rostos. Abstive-me então em deixar o meu tocar o punhado de amarelo chumbo que brotava no cinza.

Meu irmão já acordara, rastejou pra dentro do breu, quase iluminado. Agora, cinco e trinta e cinco da manhã. Ele me pedira para acordá-lo quinze minutos depois dali. E estaria eu vivo? Sempre pensei em morrer como um Nosferatu, fulminado pelo sol sob a janela, com uma das mãos ao peito e outra tentando cobrir-me usando a inútil sobra que cinco dedos magros desenham. Preferi fechar um pouco a janela, o vento frio da madrugada ainda rasgava. Mas, rezei pra que a manhã soubesse como entrar pela casa. Pra garantir, deixei um fiapo de janela aberto. Um fiapo de morte pra mim. Como se esperasse algum amor tardio.

Entrei no quarto onde o computador se esconde, me escondi. Tornei a porta quase fechada. Na brecha, vi que o sol já cruzava toda a casa, tocando o vaso de vidro sobre o aparador antigo de madeira. Respirei aliviado. Coloquei Jeff Buckley pra cantar, junto dele "atravessei o jardim das meninas louras". Reli alguns textos. E com um gosto úmido e entre cortado de luz, escrevi este.

(O primeiro parágrafo do texto foi perdido entre o colar e o copiar do bloco de notas para o word. Mas reescrito às pressas, pra não deixar escapar uma imagem se quer, com o sabor das palavras ainda quentes sobre a língua rósea da mente.)

2.8.07


"Cem Poesias"

Sem poesias
sem poesias
sem poesias
sem poesias
sem poesias
(repetidamente até cem)

13.8.07

Anônimo

Teu corpo nu - branco
rio verde de pequenas veias
salientes
para fora da pele,

sob a penugem amarela
e magra
a cobrir-te na extensão
que és tu agora,
quando penso.

Avisto que tua boca
sela neste resquício o que dizes
sem por muitos me focar - sufoca-me.
No que não pensas?

Assim, o nu de teu corpo
no branco lácteo de meus pequenos dentes
instala-se avaro
como o gosto da carne

e aquele cheiro
cheio de suavidades
vem demonstrar que eu ainda preciso
dentro dessa minha força raquítica

abrigar o desejo obeso de
te esquecer.

13.8.07

"Operários"

Gira o torno
gira o ponteiro mais veloz
uma e meia numa tarde absurda
operamos dinheiro dentro das máquinas
operamos o tempo
gira o torno e torna a girar
o sangue frio nos tubos de aço
um riacho vermelho e prata
éramos ópera
cantávamos o apito das dezoito
a noite banhava o sol
uma lua de sabão em pó já apertava os olhos
cantávamos às solas de sapato no barro
a ópera moderna
girava o torno noutro turno
nós a caminho de casa
a família e os filhos da janela
comemos do pão pela manhã
durante o dia o estômago quente
agora a noite, uma sopa do almoço
o p e r á r i o s
mordemos os lábios numa reza vaga
apagamos as sextilhas, deixamos os versos
noutra manhã manchada, marchamos em frente
operários de o p e r á r i o s
vamos operar a rota validez do esforço
o ignóbil agir no arado escravo
e festejar as sombras
beber nesse escuro vão entre as casas
que a noite esconde nos quintais
onde podemos ver a vida mais leve
onde podemos entender os cães
a atirar-lhes estrelas
e ajeitar-nos no sofá remendado
para um momento de paz
operamos o inferno
o p e r á r i o s
operamos um decênio
o p e r á r i o s
operamos as máquinas
e matamos nossos corações maquinários
operários surdos
operam seus dedos
nessas letras
nessas teclas
opero por vocês
que me operam
e operam minha voz.

14.8.07

"Risos"

Vou preparar um riso
amargo
destes esquecidos

sob guarda-chuvas,
atravessando a rua
para sempre.

Prepararei este riso
amargo
povoado de outras menores
doçuras,

cheio de outras delicadezas...
dessas pequenas mentiras.

um riso amargo
para ferir tudo
o que ainda
não fui capaz de sentir.

16.9.07

"Som das luzes"

O som das luzes,
dos refrigeradores
aquecendo.
Você não funciona mais!
O som dos olhos revirando
a noite
fazendo sombras na mente.
O som que fica - some.
O som das luzes
que não se pode abafar.
E dormir sem saber como,
sem peso
a-morte-cer na queda
e revirar poucas palavras.

Você não funciona mais!
não é o refrigerador,
não é a luminária,
nem o poço de silêncio receoso
não é o torpor dos seguranças
no meio da madrugada,
rangendo os pés e te acordando:
- Senhor, infelizmente...

Você não funciona mais, obrigado!
não tem o ruído sinfônico e cruel das luzes,
não tem o valor numérico de Cristo
quando acelera a máquina fria da manhã que surge
você não funciona mais pra mim
velho jogo de armar
que eu já nem armo
Nem o som das luzes,
você nem brilha
e eu acordando
de um
em
um
minuto
de
cinco em
cinco segundos
s
e
g
u
i
d
o
s
olhos roendo outra semente
no vaguear
de moscas
e de passos leves,
pequenos elefantes mórbidos
que não existiam.

O velho rebuscava o espírito
os jovens giravam
a noite de trabalho, escalas...
mas os cigarros nos cantos dos bancos
não me abrigavam.
E você não funcionava ali

O samba etéreo e vago que ficou ecoando
quando, dos letreiros eu pude trocar a pele
vi descosturar
a sopa de estrelas
e resolvi ficar pra ver onde iria.
Vem lá o trem negro outra vez
E o som das luzes adormecendo
tic
tac
tic
e o violão serviu de encosto
e o corpo serviu de barco
o mercado mais familiar,
cemitério imenso
nós, fantasmas, só luzes ruidando.
É o som das luzes ofuscando
e você?
Não, obrigado...
não funciona mais.

* Escrito depois de uma noite em claro,
perambulando, e tentando achar um canto pra dormir
num hipermercado 24 horas, da linda e triste zona sul.

Ilusão acesa
janelas como olhos observam
têm-se o pesar de cada fantasmas essa noite;

e o indivisível arquétipo de morte
que só bem sabem os mortos
apagados,
e os que lêem sobre.

Nos túmulos
murcham engavetados,
mas o cabelo ainda cresce.
Cresce escondendo os dois átrios oculares;
as unhas ainda crescem,
a carne é a única que encolhe e fede.

Amarrada ao corpo
uma ilusão breve
abafada.

E o indizível arquétipo de vida
devorada.


22/07/2009

"Carolina"

Destroçada, a carroça desceu o outeiro, quase a pique. Seu rosto era de um pequeno pavor irônico. Tinha na boca mordida, talvez uma palavra amarrotada, pronta pro estalo. Por sobre o verde lavado da esteira de grama, uma tarde branca peneirava o céu. Algumas outras almas sem vida manchavam o lugar, ao fundo, doidas pinceladas expressionistas. No choque da parada, ao redor, o mudo espetáculo do tempo assinalava a inércia. Abismados, movimentamo-nos para fora. Antes tuas mãos, agora o corpo atravessando a porta invisível da carruagem proletária. Teu negro vestido vislumbrava por sobre o assoalho apodrecido ranhuras e algumas dobras volumosas se faziam espetaculares.
Já de pé sobre a grama, deitei meu olhos em ti. As rédeas já desfeitas, os dois pequenos cavalos quase que riam por nossas costas; arteiros, poderiam ter evitado o troço. Teu vestido respondia bem o roçar do vento, percebi tuas meias descolocadas, uma em cada tom. Ri baixo e guardei este indício da ventura. Parecia um quadro mal pintado tua expressão. Mas logo um riso bobo e contínuo me fez agradecer o tombo, e tudo o que tornara aquele instante em realidade.

continua

Oras cega para um pequeno rebanho de malfeitores
nenhum deles quer teu caminho clarear com sangue
Nenhum rebanho quer fogo como pasto, pasto como
sangue.


XXX

Que é o nome
senão a fome
destes homens que nos chamam?
Não é Maria, aquela que imaginas
a minha é louca, olhos de pura lava
a de Astor se mandou em agosto e partiu seu rosto
com uma faca de cortar legumes.
O nome diz sim.
Tem números encarnados, signos.
Tem fé e os astros arquetipam.

De ti o elmo
couraça de espetos
e ris, pequeno sol avarento
Tua assembléia norturna acorda os mortos
alarda de canto a canto as moribundas velas
selas o silêncio
e ouço cada ranger de estruturas, a energia tremendo nos objetos
tudo, a matéria respira vagarosa
teu monstro se despede ao som de vaias
agora o monturo engabela-se à lua.

"Piras"


Imagem: Ben Vautier


"Piras"

Voando em becos
nossa velha alquimia
Soldados de elástico
apaixonados pelo crime
e de soldo a dúvida
sem ela nada.

Arrasto-te pra fora
levo tuas pirações
se um dia mortos
flores então!
e o sol no teu corpo
como velhas pixações.

Te arrasto pro esgoto
pouco esgoto-te.
Acaricio teu câncer
e a vida goza nessas dores.

Sombra da tua colher de chá pequena
medida mais curta
- meu muro de pular desejos
No fundo de caixas onde
a cicuta dorme
e o amor não é mais
que um breve beijo.

Voamos,
pequenos urubus
de volta ao ninho.

27/06/2009

"Nossa Senhora das Graças"

me cerca, me destina
tem quê de água de gruta, mas vem de borracha fina

boia feito fruta a palo, que do pé se dá num tiro
estado-tempo-passado, vai queimando-se aos pedaços
eu vou só mas não me viro.

do chão só colho futuro
oco pedaço de escuro;
não tão maduro quando a casca
deflagra seu gosto de furo
mas mordo mesmo com gosto
esse vazio tão duro.

a bica de latão tossindo, vai aos baldes dividindo
devolve o verão às latas que em ombros tomam seus destinos
era eu àquela tarde,
nunca mais esse menino.

abacates sós não me esconderam
de forma que em mim, um gigante e verde abacateiro
por sobre o barro pintalgando sombras
e um doido sol varando os becos.

suor nos dedos que de estalo já no gatilho
disparo mudo, recebo às costas outro tiro.

e vou testando longe, a golpes de faca e vinco
já que de vida se faz morte
e acredito na morte comum abrigo

no mais é cobra comendo rato
e estômago mascando vidro.

"Nossa Senhora das Graças,
Boogie-woogie, Rio."

03/05/2009


Paixões!

Pro amor falta um tanto
pro rancor pouco menos
já que pro fim tende muito,
pois é chama que nasce exaurida.
No demais em tudo há na vida.
E a vida é apaixonar-se por tudo.


A sede do leito, esse meu peito
onde muito vago ajeito
e ponho-me a ver-te navegar.

Oh vida minha, pequena.
Nessa e noutras, tão cheia
dái-nos a brisa na areia,
leva estes brincos pro mar;

e neste vem e vai da lua
onde a maré verde recua
cala este braço de vento
traz os fantasmas do tempo
e os que há muito sumiram por lá.

Conta-nos que há o mistério da ida,
já que há outro na partida,
sempre por perto de chegar.

E que nenhuma carta avisa
e vai voando, rouba-me a saliva
e só, me sáio sem nem um i ou a.

Me conta como pará-lo agora
antes que a fúria da memória
devore do porto este corpo
e tudo que a contra-gosto
não o quiser acompanhar.

Oh vida, minha pequena.
Não vejo em nada a desgraça
mas a ventura é sentida
e eu já sem prazer na lida
ouço o mar em cuspidas
teu nome nos vir lembrar.

Então melhor é mergulhar com tudo
e jamais ter outro mais fundo
corpo, barco, mundo!
Nenhum naufrágio mais surdo
que este meu lance profundo
para feliz te abraçar.

24/04/2009

Não preciso da religião dos homens. As regras estão sob a noite, indefinidas como tudo o mais é.
E não perca o seu tempo com tantas palavras mortas.
Comece por cavar cada um de seus túmulos - e não me peça que eu ore por elas.
Além do mais, esse mundo já não precisa desse tipo poeta.

Deus me acompanhou até a padaria.
Mas só o vi quando entrou na sacola de pães
e desfez-se no calor que os pãezinhos rorejavam.
O paguei com umas poucas moedas.
Ainda, antes mesmo de cruzar o caixa,
lhe arranquei um pequeno pedaço, da orelha talvez - não vi.
Tomei por grande a confissão: Deus anda mesmo comigo por aí.

Enquanto caminhava de volta, o vi no dorso de um cão magro
que se ajeitava na fileira de sol - tinha uma cara amassada de sono,
não parecia Esse Deus que falam os grandes livros.
Falei: - Bom dia!
E o sol logo me ofuscou a vista, a rua estava pra mim novamente como uma fotografia antiga;
Deus, naquela cor amarela, parecia mergulhar em cada coisa...
Então me disse num bafo quente, derretendo a noite perdurada rente aos muros de eras:
- Bom dia meu filho!
Respondi positivamente com um leve riso para a criança que passava depressa,
carregada pela mãe a caminho da escola,
que me sorriu também, de alguma forma diferente - pude ver,
era Deus naqueles pequenos olhos.

Mais adiante, ao dobrar a rua, o sol se escondera;
mas por entre as folhas, ainda driblava as sombras e ia manchar suavemente
o asfalto úmido que a garoa abraçou durante a madrugada.
Ali, sobre as sombras frias de um conjunto numeroso de amendoeiras,
Deus me sorriu novamente numa poça d´água, em forma de sol
refletido num naco de água velha e fria.

Ele está aqui agora, enquanto escrevo.
Às vezes, peço desculpas antes de cometer esse pequenos erros, quando os sei, claro.
Ele resmunga em alguma língua dessas dos anjos, mas corrobora.
Deus é também os meus erros.
Ele se senta, pega um jornal celeste qualquer,
torna-se a par das grandes movimentações terrenas, e me deixa errar como um bom Pai.
Como uma mãe - pois sim, Deus também é uma mãe,
puxa os óculos para a parte inferior do nariz, olha por sobre as lentes,
cata alguns novelos e fia pacientemente outro universo silencioso e complexo enquanto erro.

Deus anda comigo até nos bares que frequento.
Lembro dele sob a forma de uma menina muito bonita que me negou um beijo,
me explicando que a paixão adolesce aos corações humanos, e eu, vinte poucos anos
de qualquer experiência que fosse.
Noutra era o garçon, sentava-se ao meu lado, e durante várias vezes
me convenceu a voltar pra casa.
Tem outra, vive me pregando peças quando esqueço da sua presença.
Às vezes se faz de ladrão, de fantasma, do breu de um pesadelo esquisito,
da coisa tida sem volta, do fim, da morte...
Às vezes, juro, Ele não é Deus.
Mas anda sempre comigo.
Deus é essa voz que o povo tem, o povo é Deus de uma certa forma.
Às vezes me deixa ser Ele por alguns segundos.
Percebo logo o peso que é ser onipresente;
desisto e peço seu longo braço e a gente sái por aí.
É, ele finge que não percebe, mas sabe que eu também o acompanho.

Fui ali,os telhados inda respiram o que se desprende do céu. E é um azul-corvo, azul-vulto.Um dia hão de ser astros sobre as telhas. Hão de ser planetas na sala, enquanto leio o dia pelo corpo dela. Hão de ser corpos estranhos, naves siderais, aves maiores que os balões da antigüidade. Um barômetro, vos peço... Mas meus pés se comportam como sinos. Um barômetro vai, só pra medir a infinitude longitudinal dessa alma que represento. E eu sei, o sol queimaria este aparelho.

Te mantenho fechada, assim é, e tem sido. Por decorridas vezes a noite tem estado aberta. Há essa colocação de estrelas, uma em cada ponto, como se lá já estivessem antes. Te mantenho viva então, és o espaço. O verbo debruça tua mente à janela da alma - você deve respirar o que se mostra aos olhos. Não se pode interromper o cair do azul. A tarde é por sobre tudo essa imensa chuva invisível.Lembra que tuas mãos, tão magrinhas, nem com os afazeres diários podem, muito mais deter o tempo, que nem sabe de que é feito. Nenhuma estrela vem te mostrar o espaço, se ele não já estiver aí, umidecendo esses teus cachos escuros. É preciso ter o riacho correndo por dentro para tê-lo assim, por fora. E você, preciso fechar-te a porta, ou uma lufada desse ar corrente te reduz numa gripe dessas que andam hemisférios. Vai, vai... vai minha mente. Agora vai e adormece. Estou aqui contigo aqui e sempre, mas não abro.

20/04/2009

"E os rebeldes?"

À exceção do parto,
não vejo mais poemas ou poetas.
Vejo o resultado de uma vida remansada pelo peso do metal,
bons colégios, a família nati-morta e burguesa flutuando sob a pele de móveis saudáveis e gordos.
Vejo em linhas bem claras:
estudantes universitários falando a cerca de romances relâmpagos e pequenos aos
pés da capital cultural sem cultura, doce colônia-escrava e sem voz.
A juventude tem apodrecido num pote no fundo dos refrigeradores.
Nenhuma dessas tintas vai me devolver a alma, a não ser aquela martelada no sangue.

A política me enoja, assim como os que esperam politicar, sentados em bares,
sobre as vidas dos que vivem abaixo da miséria, se houver o abaixo.
Os poetas dão ao clichês nomes novos.
E se vendem-se facilmente.
Uma vez disse:
"Os medíocres podem facilmente serem confundidos com poetas,
mas os poetas jamais são confundidos com os medíocres."
Os escritores, escritoras, faltam-lhes a morte deste intelecto criado nas cadeiras
que sentaram para ouvir e calar, e resolver ir à pique pela carreira e a vida boa.
A única carreira que eu vejo é a da besta riscando o escuro nefasto do céu
ao qual se ajuntam aos milhões.
Todos vocês precisam sentir o sabor real da carne que há entre as letras de qualquer palavra
mesmo dessas que não se saibam ao certo o que provém de seus gomos estranhos.
Sem significado, que sabor!
Como o navio pirata à rumar ao pestilento mar revolto da boca dos que falam indiscriminadamente, eis o "blasé" verídico.
Os olhos de dentro precisam enxergar primeiro essa luz que cande de cada uma,
ornar o corpo e levar aos candeeiros das cidades novas à luz de gases, este clarão dourado.

Palavras santas que nos cobrem dos milagres mais bárbaros.
Quero a barbárie! Oro por ti quando me deito, quando me levanto!

Me entristeço ainda quando volto a indagar-te:
- E os rebeldes?
Morreram... ou andam por aí subservientes de tudo o que for de mais nojento.
Obedecendo ao deus Estadista que garante ao final de trinta dias, suas verbas pro
pedaço de loucura do qual se alimentam, sorvem em seda ou garrafas antigas...
e que alimentam o ciclo cruel dos que morreram de verdade, e deixaram mães desesperadas,
e filhos com olhos de esperança para os grandes fotógrafos receberem seus prêmios.

Eu não sou mais este jovem, nunca fui!
Mas amanhã ainda serei novo, pela manhã.
Quero é ser morto até a hora de minha morte.
Prefiro a burrice dos que não sabem o que dizem,
a saber e dizer pela metade tanta asneira, num vômito parco e ralo.

Não vejo mais poemas,
senão palavras aglutinadas.
À exceção do parto, não há mais poesia sendo feita.
Novamente:
- E os rebeldes?

12/04/2009

"A vida, éter-na-mente"


Não o que dança firmemente,
este sabe bem onde pousar os pés.
Pois basta que a lua tarde, e já se faz manhã dentro da pele.

Motivemos então agora,
o que de menos limpo e novo há nessas taças,
agora rasas, que antes moldaram o melhor do gole:
suaves paragens de andarilhos.

Gole hirsuto e largo, vasto - tão que o bocal partiu-se em pedacinhos
e foi-se como vão os passarinhos
em cada osso e vértebra aninhar.
São mais que peças que te pregam teus amiguinhos,
pois estas pequenas aves não te negam.
E mesmo tu sem penas, já te ensinam a voar!
Porque é preciso homem!
E impreciso como tudo, mas é preciso - sempre! - No fim saberás!
O rio está sempre a inventar os mares.
E mesmo que te esfarele a face num vôo tonto,
toma, podes tomar como tuas as filigranas deste sol por de mais gasto.
Ainda uma brasa assim quase que morta,
pode bem explodir em fogo um grande pasto.

Basta então amigo,
que te relembre desta ilhota de paixão!
Eis que seja teu único brinde talvez, que propôs a vida.
Mas verdadeiramente!
Nada pode ser mais dúbio que a verdade.
Estuda com tua alma, ela não pesa.
A calma é mãe do desespero, saiba.
Não temos tempo pra tantos mapas.
E quem se perde, há de achar novos caminhos.

Vai!
Estende-se pr´além do corpo.
E com grandes olhos busca teu troco,
mas não o contes enquanto o tomas.

Ali, no final deste reduto cristalífico, expande-te - posso e digo!
Verás teu corpo reduzido
ao corpo comum de qualquer homem.
E talvez, se assim conseguir e puder, faz como eu, chora.
Chora que a vida é mesmo breve,
tal este olor pequeno em cada gole.
A vida é éter e se esfuma leve de vento em popa;
é breve assim como este vinho e evapora.

20/03/2009

Tu
..............mirante trágico,
..............claro umbigo da luxúria,
clara lua
adormecida e vã nas atmosferas de aço.

Tua
minha crua lápide, tens o troco do suave adorno
.........................................pote podre de ouro.
Vês que o amor te afaga,
numa gravata negra.
Não somos mais tão velhos.
A juventude está sob a língua.

Alpiste mágico!
Eu tenho a senha da tua sopa.
Eu leio os postes sob as telhas, velhas casas cheias de merda e vida,
vida e merda sob os tacos soltos,
....................velhos telhados rancorosos.
Andamos pisando pra cima!

Estivemos dormindo por uns mil anos, e agora
só nos resta sonhar.

Poemia!
Por ti zil regressos.
Por onde sempre começo,
sem ter jamais partido.

19/03/2009

09/02/2009

"Romeu e Julieta"

Devoro ambos
num só espaço
cheio de estacas encobertas.
Confio-lhes meus ácidos.

Devoro-os nus, um sobre o outro.
Mastigo ambos - tenho afiadas facas de osso.
E a lua paira em meu esgoto,
desce a laringe - o amor perdeu seus óculos.
Atinjo em cheio o bolo do estômago.
Cegos se cobram delicadamente no baço,
o abraço
sem todo o pavor que aparentam.

Confiei-lhes a língua,
aquela que embalou meus golpes.
Confio-lhes então o soro da saliva, num pequeno mar revolto!

Engulo a lua desajeitada,
e os dois se afogam no esôfago.

Romeu branco, tal urubu raquítico e novo,
recolhe Julieta, beijada e despedaçada
em seus sanqüíneos trajes abjetos.

Ambos já estarão em meu reto! - sinto-os unidos novamente,
e nascerão para fora, já os exorto finalmente.

(num gole d´água desconfio ter apagado o sabor do gosto)

O amor é amargo diz meu rim direito,
diz que é doce o velho palato.

Mas Romeu e Julieta estão vivos!
E boiam no latrinal ninho intacto.

07/02/2009

"Sete de fevereiro, Rio de Janeiro"

Eu posso te falar da lua lá fora: grande, longe... é a lua né? Não dá pra ser menor.
Posso te falar desse calor que faz nesses primeiros meses no Rio, o Rio é foda!
Posso ainda, tentar te explicar o que é escrever sobre tudo isso... alguma coisa lá de dentro pedindo pra sair. De qualquer forma te dizer não me parece ser o que tenho feito.
Escrever é solitário, né não?! É bem mais solitário que pensar em você, enquanto escrevo. Ou falar contigo enquanto penso, e sempre me perco em milhões de gestos, na maioria das vezes vazios. Estamos sempre pensando demais, falando de menos.
Posso voltar com essa frase inicial pra dar curso ao texto.
"Posso aquilo, posso aquilo outro..." Posso mas acabo não podendo. Eita!
Escrever é solitário.
A lua continua lá fora... seria bom é te chamar pra ver. Meter a sandália e dar uma volta. Está enorme, tem poucas nuvens atrapalhando. Uma mechinha de estrelas caindo no que parece bem ser a testa do céu essa noite. Noite quente. O verão chega metafísico no Rio, impressionante. Vem com esse peso das chuvas todos os fins de tarde. Lembra? Talvez se lembre da chuva ainda... mas é uma merda né, sempre falta luz. Todo mundo se volta pra sala, pra dentro mesmo, acende velas, lembra da família. A televisão é um monstro mesmo. Engole tudo! Aquela luz azul safada de morna, acaba engolindo a gente. Ouvi dizer que é o chiclete dos olhos, boa metáfora pra tanta maldade. Mastigamos, mastigamos... - às vezes sem sabor algum. E a gastrite? No cérebro né? (risos) Bom, te desejo é sorte nessa tua nova vida. Legal dizer isso. Parece alto astral mesmo, aniquila o resto. Mas, se de repente for noite quando topar com essa carta, pára de ler, pára! Corre pra janela... vai, vai! Fico aqui esperando, bobo... Talvez a lua esteja lá em cima. A mesma! Enorme, velha, lua-nova, cheia, sei lá – nunca sei. Mas ta lá ela corroborando essa puta saudade!
Aí velho, toma um abraço daqueles aí! Um dia a gente marca pra falar desse vazio de perto. Enquanto isso, vamos levando. É a vida né?
Aliás, estamos vivos? (risos) Bem, pelo menos parece.

Abraços!

R.

06/02/2009

Fração de Segundo

Estava lá, nos óculos, no reflexo dos óculos de Mário Prata.
Entre as persianas da janela, escondendo a tarde clara de um bairro qualquer do Rio.
Enquanto isso, o câmera mudava o close, a sombra mexia o braço lentamente. Senti o prazer de suas mãos tocando o fundo do bolso esquerdo, um caramujo bolinando folhas no pequeno vaso sem plantas.
Estava na quina da tela agora, e escorregava para desaparecer. Quando
o rosto do cronista surgiu enquadrado à direita, já não era mais sua imagem negra no vidro iluminado, cercado por aros grossos - estava guardada tua existência. Fiquei com o pensamento na ponta dos dedos equilibrando, deixei aquele peso dobrar-me os braços. Avancei para o controle da tv, aumentei o volume, me senti um pouco mais sozinho.
A sombra esteve ali, alguns segundos antes daquela última pergunta. Milhões de pontos coloridos apagaram-na para sempre. Vou perseguir a reprise do programa de entrevistas. Talvez reavê-la - fração de segundo. Me apaixonei por uma sombra no relfexo dos óculos de Mário Prata. Não pela mulher, ou pelo sujeito escorado na janela, sem sexo aparente, mas pelo ardor que queimava àquela tarde em plenos 1997. Me pareceu preocupada, ou preocupado. Esperava por alguém, de relance, mirava a rua. Renegava a equipe de filmagem dentro da casa, Mário Prata, as câmeras, todo o burburinho que se deu, acendendo aquelas horas. E o autor, nem se atentara ao fantasma sob seus olhos, respondia algo sobre seu último texto. E o corpo permaneceu imóvel em meu registro imemorial dos últimos dias, delineado pela tarde branca que se consumiu por detrás da janela daquele apartamento, em plenos 1997, num bairro qualquer do Rio, dentro da minha sala, na tv, no reflexo dos óculos de Mário Prata.

04/02/2009

"Anotações de viagem"

Vem desfiando águas, tornando inúmeros mares o que primeiro lhe acolheu, tão ímpar. Repartindo cores, faz num tracejo branco a espinha dorsal do caminho. E o mar sob a tarde estufa, longe de placas, nomes de ruas. Sob a luz emendada das primeiras estrelas, de um ponto a outro nas quinas do céu. Mar que levou tantas águas, enganos; mal recebe os prêmios por reinventar Iemanjá, a sereia que revelara o nome. Mar de pequenas navegações, grandes migalhas no destino incerto. Grandes lacunas de fôlego, do galope ao fundo. Vem desfiando, sendo esfaqueado a sal. Punhal de ostras, óperas úmidas nas pedras de venenos e mexilhões. Quisera ter tido um barco, o cipestre dos deuses que a barba conduz. Quisera, anguloso, deixar qualquer cais. Deixar qualquer amor, inanimado que fosse. Largar saudade por onde passo. Vai desfiando águas profundas e frescas meu pensamento. Um barco, um corpo. Mas não há oceano algum ao redor. Vai sobre a noite argente, sobre os fantasmas do estreito, sobre os piratas, inda meninos, remexendo cos dedos o cardume iluminado, desaparecendo. Quisera eu, tornar inúmero um único chão. Revoltar pequenas ondas. Delinear o sol salpicado, cobrindo picos, centenas de milhões ao longe. Vai pensamento! Embarcado neste pedaço de vácuo - respirando por eletricidade, levar esses marujos pra longe da praia. Pra onde meus sonhos alcancem com pés de tocar o fundo. Recebendo os golpes duros deste que primeiro me acolheu tão leve.

01/02/2009

esqueci
tarde pra voltar àquela hora
não tinha sobras
a ponte, esquecida,
lembrou-se de errar meus passos
perdi-me
tão convencido que o real avançaria
e o mundo recolheu-se em minhas mãos,
pequenas arando hemisférios
o sol varava nos dedos,
chegava aos olhos, o sumo da castanha de caju
meu varal de lábios sentia o amargo
a ponte, esquecida, varejava minha sombra
estudava leve: balões não sopram oceanos
fui levado, soprei a pele
não tinha sobras pra catar,
nada que refizesse o nome
lembrei-me,
desfiz teu rosto, coberto de alagoas
o mar desceu teus ombros,
esqueci novamente
voltar o passado é sediar milhas de nada
volto para arrancar meu posto, vigília de planta
lacustres, os olhos naufragam
enxergar?
lembrei
a visão estava morta sob a porta,
e um batalhão de formigas marchava sinuoso
um menino espreitava o silêncio morto do avô
a rua respirava cheia, era o bloco secando os copos
as palavras, esqueci
fui rarefeito
numa caneca com sabão e água
flutuando segui, preso à goiabeira,
vôo translúcido, o vento me liberta
deixo o ar me segurar, a simetria circular dum fantasma menino
agora o estouro esperado e
ploc!
a ponte deseja meu peso, e eu passo
passo por passo tuas vertebras,
costela arqueada, logo toco o lado de lá
revejo as sobras, encontro meus filhos,
minha vida!
meu jardim está repleto de lembranças
começo o caminho pelo fim.

24/10/2008

Minhas calças brancas acenavam comigo. Junto ao céu desacelerado, formava uma âncora morena sobre o cimento claro do cais. Sob os barcos, flutuando em sopros,
o mar permanecia azul. Tão azul que se podia ver as nuvens desenrolarem-se, pequenas pombas cochilando no frisado mover das águas. O sol deitava àquela tarde. Era uma tarde pequena, e essa pequenez vem da conjunção entre a cor do céu e a brisa morna que riscava, vultos enigmáticos das cidades à beira mar. Os convivas ladeavam-me sem saber que meus acenos distanciavam-me de mim mesmo. Algo tão comum que doía. E quanto mais se afastava a graciosa balsa, meus dedos recolhiam-se como se entrassem para dentro das mãos. Nada me trazia. Apesar do numeroso alvoroço deixado no rastro ritimado, não via minha alma claudicar buscando terra. Já havia naufragado junto a distância. Com uma pedra no peito, já deveria abusar dos metros de profundidade. E ia ter com os outros naufrágios, uma fotografia desfocada, ressecada junto a areia do fundo. E numa lasca de história, a simplicidade de todo aquele povo anônimo, às margens do sol, me cobriria de um limo estranho, pesando-me de esquecimento e eternidade.

10/10/2008

tecido
amanhece sóbrio
é uma concha, ou pá de nuvens

tece
e parece pouco
sente frio, e logo veste
sua cara de sono
pesada,
esticada à pele

têm calças bege
muito pouco fala, mas não pensa
e nada tem pra dizer

três pras nove,
apita o bule
aquela tês que avisa
dela, o risível luto

mas mata publicamente o salto
lembra o amor, uma rede esdrúxula
a dedo
roendo pedras,
o quarto e suas paredes
arrependidas
flutua dentro do cinza que sopra
suas pernas sempre o aguardam
um passo após o outro, engole

tecido
empalha
parece leve, mas pesa
alguma desgraça o espera na sacola
têm nos pés uns cinco dedos
pequenos dedos presos no couro do cinto
mas são tão grandes em largos passos pela chuva

a tarde pouco lhe diz, venta muito
mas a janela esconde o monstro

perto da sala, ela não liga
esfarela nas mãos a carta lida
nada de palavras falsas
mas nenhuma cola o rancor movido

agora indifere
separa-se dos carros que convulcionam
têm olhos de sirene e chamam
virão ver o mundo em sombras
e a noite mergulhada no café gelado

amor te excita, cala
poderia ter te amado
teria sido ela
aquela que o trem cruzou

agora,
apodrecida criança
e nenhum pequeno herói para completar o filme
ou mudar de cena

09/10/2008

Em lato sensu
desumanizo
Há uma sombra por detrás da sombra
que doma a luz aniquilada
O níquel é falso, grama e laje
Não sabe bem.

Há uma forma de se medir a curva
segmentada forma - objetos surdos gritam do biombo

Há algo a se dizer, não dito.
Fica à colher silêncio.
Não sabe bem.

Assim devoro-te certo.
Palavra alguma detém o gesto.

Cessa o céu,
a chuva foge.
Resta o gosto úmido nas coisas.
Nenhuma estrela tem lugar no amarelo adrágio.
É um céu branco e raro.
Céu de chuva que termina contumaz,
gelada e leve;
lavrando o sopro extenso
que o mistral armou.

(tarde de outubro)

02/09/2008

Estou sempre procurando em mim
um abraço que me acenda,
que me atenda no chamado veloz da noite.

Dentro do metrô fugindo,
driblando a cidade.

Sempre, devastado,
ávido por aquele abraço doente,
de quem espera algo no vidro vazio.

De quem maneja nuvens de viração,
controlando equipamentos antigos.
De quem espera da semente morta,
a grandiosa sombra.

05/08/2008

nada que se faça com o tempo
ninguém amarra
o tempo
mede altura, corta unhas,
nada
não é pele, pluma, peso...
não tem cara, nem cheiro
ninguém deita o tempo
o tempo não tem costas
ninguém bate tempo na pedra
sem lascas,
sem vícios
o tempo é um tipo de nada que passa
e somos o que resta dele.

11/07/2008

"Vidro de perfume"

De atropelo é vida
nova cuspindo
campo.

É galo engolindo prédio,
velho
olhar rasteiro e espanto.

É prédio lançando lua,
gente lançando carma,
lançando.

Vidatropelada
avenidas derrapando em bocas,
e beijos engarrafados.

Amor
engolindo vidro
pia
de rachar silêncio.

De atropelo é vida
e é a morte
secando a rua.

01/07/2008

Devolvestes o fruto.
Fostes mais árvore que as mãos.
Não plantei teus olhos, raízes

que inundaram de sangue.
Pés de tua pele,
onde à sombra a boca borrou

um nome.
Do fogo, geramos
a era cega da vela.

Envolvestes minha chama bruta.
Oco, em fuligens,
gastei o espectro, risquei-o.

Fostes minha âncora
e partira em voz de silêncio.
Devolvestes o fruto.

A terra ressentida
evocou vossa sílaba
uma pesada folha retesou teu falo.

Nem eu nem você
apenas o encanto.

Cruzamos nossos nomes.
Riscou-se um rosto:
de margarida, de abelha, de negros olhos,

dentes tortos.
Fugiu.
Fomos três pessoas

dois dias.
Nossas metades numa parte.
Mas migrou o fantasma.

Voltou ao fim da fila.
O filho ainda espera,
e o chamado é breve.

Saberá ele a voz exata?
Saberá que tuas mãos são essas árvores?
Que cobriram seus cabelos?

Soubemos pouco.
Agora, devolvestes o fruto.
Guardamos, da semente,

o puro ar de sua morte.

Feroz é o galo,
advento crucial da manhã.
Cruza de noite e luz.

Feroz todo mundo
dentro do mundo, feroz.

No bonde, no escuro às 6,
na padaria abrindo.
No raiar do poste elétrico, torturando o mendigo.

A primavera sonâmbula,
canhões crivados de sol.
O sideral volume espacial da aurora.
E teu cadarço frouxo, roxo,
amarrando tudo.

Feroz tua boca,
mordendo o ócio, travando o ofício.
Tua ferida cobrindo a falta.
O frio sem o lençol pra matar.

Feroz tua fuga desembestada,
tua verruga na cútis prata,
paupérrima tez mulata.

Feroz é a tv, cintilando na sala sem ninguém.
Teu pai morrendo no quarto.
Tua vó desenterrada.
Tua pá de ossos coloridos.
Teu filho viado.
Tua pasta de fígado de ganso.

Feroz é o pasto, roendo a terra.
A Terra tragando o pasto;
pastor comendo ovelha - prova óris do sistema.

Feroz é a tela, janela vomitando margem,
esconde-esconde à tarde.

Feroz é o galo,
rasgando a manhã.
Fantasmagórico trem amarelo,

fulgente,
advento crucial
do poema.

29/06/2008

Aprendi criança a dançar.
Somos tão leves...
e esquecemos com o tempo.
A longevidade aquece o peso do quão tornou-se distante dançar.
A tortura da idade chega maldosa, rasgando.
Não há rádio mais alto, nenhum berro cruza a vizinhança.
O tempo alivia as caixas de som, evapora os graves.
Quando muito, a tv ligada na hora do jogo, e um berro infantil - voltamos e desaparecemos.
Aprendemos a envelhecer olhando as crianças.
Ficamos velhos, menos que os pais, mais que os filhos.
Dançamos leves ainda, e não sentimos.
Deixamos a leveza pros passos do quarto ao banheiro, pra não acordá-los.
Ficamos balões de gás no teto, quando susurramos à noite, devorando a pele.
Nenhum riso atravessa eras pra morrer num choro, mas assim, desconhecidos,
tornamo-nos crianças severas.
E a dança em si, por mais pesada que seja, esquecemos.

28/06/2008

Rodas de estrelas
giram num céu mercúrio.
Passo mudo, pasmo,
e embarco teu nome.

"Os coveiros"

Levam tuas mãos de mim
E o telégrafo desafia o tempo,
desafia tua lembrança, grafa a ausência.

Levam tuas mãos de mim
leves, que carregam teu corpo.
A mortalha de teu riso acalma
atropela os cães do beiral.
Levam tuas mãos de mim
roubam-me tua boca
e me cospes silêncio.

- o sol marcha ao cemitério -
Enterram-te junto ao meu, que também levaram.
Sulcos balisam os nomes.

Fico sobre os dedos, sentado
os teus, cercados, ondulam no breu que fias.

Levam tuas mãos de mim.
Mãos frias!
E como aquecer-me de lembranças?


"Morte minha"

Que em ti tudo anima e ajeita,
carniça muda bate em meu peito.
A hora por seifuras desfeita
e o mar soluçando pilhérias.

Tuas desventuras são sérias
minhas derrotas todas, tenho vencido-as.
Fantasmas que tua sombra acolhe
e deito-te senil ao leito aquoso.

Por frio meu corpo nebuloso
não quer a lápide invernal dos vários palmos.
Não sou planta que pisas

brisa férrea que ao sol acalmo.
e minha morte, à ti recorro
quando sem vida, por sorte, morro.

26/06/2008

Meu amor tem gosto de não ter peso.
Salutar presença do tempo não tido.

25/06/2008

Tenho aprendido.
Aprendi a guardar gotas d´água na barba
e dali gotinhas de luz entre os fios.
E que a barba é um segredo bobo,
mas as mulheres jamais terão(algumas).
Aprendi que sou mais chato com fome que criança com sono,
e que com sono, sou uma criança com fome.
Aprendi a atravessar os dias um à um
assobiando alto, fazendo algum barulho com as mãos
pra alertá-los.
Para os relógios não gritarem no meio-dia:
- É hora de abraçar!
E eu não abraço.

Aprendi que a solidão é esse gostinho amargo
da vontade de estar junto,
e se não fosse, seria o estar junto,
esse gostinho amargo
de não estar só.

Tenho aprendido.
Que quase nunca aprendo nada.
A não ser o que escrevo e releio,
boa memória fotográfica, salvas ao cerebelo.
E das músicas que faço
poucas vão pro disco,
poucas vão ser cantadas novamente.
E que felizes são as que não são cantadas.
Pois, cada dor sabe a dor que é,
se não sabe, dói assim mesmo.

Aprendi que apêndice
é dor. (pr´alguns)
E adendo.
Qualquer coisa que se adicione ao texto depois,
mesmo que essa adição não tenha lá tanto sentido.
Aprendi:
Encher é sempre esvaziar.
Aprendi que ela é uma menina
que ela quer ser uma menina
e sonha ser uma menina
até age como uma menina
mas ralha como uma velha mulher cheia de câncrios.
E que nenhuma de suas perucas esconderá sua vontade de ter cabelos.

Tenho aprendido.
Ensinando só desaprendo
aprender é fingir que sabe
Só se aprende mesmo quando não entende
que se está aprendendo algo
Aprender é solitário
e tudo que é solitário faz bem
pois não depende de outrem
Sem egoísmos, no fundo sabemos
que no fundo mesmo,
estamos sempre sozinhos.

Tenho aprendido.
Que aprender a amar
é aprender a aceitar que mesmo
com tanto tempo,
ela é a mesma pessoa que conheci aquela tarde
e que todas as vezes me parece uma diferente.
E que dentro dos risos que ela larga
eu me apego aos mais sem graças
que são os que deixam os ossos de fora
e que mesmo com tantas aparências
estamos sempre buscando o verso das pessoas.
Mesmo sabendo que pra cada verso claro,
um lado escuro está pra ser mostrado.

Tenho aprendido,
urgentemente que escrever é um remédio ofegante
e que nenhuma palavra guarda segredo da outra
e estão sempre contando seus meios
já os fins, estes nós mesmos os ditamos.

10/06/2008

Vês que é mais breve a vida
que o facho dela tida,
que o cacho dela feita.

Mais que a água na sede,
que a sede em lacunas da pele.
Mais que as cidades nos livros,
sitiadas
- e por isso, não lidas.

Vês quão breves...
E ainda urgimos no que somos,
isto que fomos,
só temos sido.

Estamos deixando sempre essa casca
voltando, despretensiosamente
pra dentro

pro fundo, acho,
do cacho, do facho, de tudo.

Sempre voltando a esse danado de escuro
vivido de estalo, de súbito, num murro.

Grita meu nome - crispado.
Chama por mim num vago desespero,
afogado na manhã que abre.

Desacreditado,
nem da janela eu chego.
Duvido dele.

Mas o galo continua enfeitiçado,
parece decifrar meu nome.

Cisco os olhos,
num soco, varo a crista invisível.
Mergulho, e volto a dormir solenemente.

05/06/2008


Ao sul,
azul,
uma carranca

- bailarina extensa e branca;
nus pés em céus de aforismos.

Leva e traz o gosto cego
- baixio vão sem estrelas.

Ao sol
de trigos
estanca;

tua chaga é mata,
clarão longo, silêncio bruto
- germina no pasto o caminho.

O quadro mergulha em tua boca.
Sinistra, tua voz cala.


Meu vulto apedreja tua sombra.
Nem que eu deseje lagar o passado,
há um ralo assaz,
e tua presença me antecede.

Nem que eu enterre a chave na barba do instante,
amortecer o sorriso ainda é aguar a boca.

Não creio.
Mas quero, por mais leve que seja, a deslembrança.
O que é atroz, morre e germina.

Desavisado, meu engano cái.
Volta como chuva e desacelera o passo.
Busco descobrir teu rosto nas flores.

Chega desse falo árido
que o silêncio abriga.
Gosto deste atrito das mãos
curando o ocidente.

Velha vitória retarda.
Ainda vemos o carrasco tossir por trás do biombo;
entrar meu corpo estrangulado.
Fui tua cabeça arrancada,
e mil machados beijaram tua testa.

Estrangula-nos o vão.
E como a janela esconde a tarde,
escondo-te de ti mesma,
ou do que me mostra ser esse teu lado leito que percorro.

03/06/2008


No peito
bate, abatida,
a funda voz e o sujeito.

Engenho de rádio e ar- porão cadavérico.

Espera na boca de ar
derivante,
soar monstruosa a vogal armada,
dentre os fios e danos ocidentes.
De onipresentes mãos mais violentas;
nasce em línguas sem dentes:
o monstro,
acuado e represado no canto do prato,
sob os garfos gulosos e alarmantes
- o poema agora é socialista.

Não encarno.
Leve, sou espírito.
Atirador noturno, onde há dor nas palavras.
Nau campo minado, lavrado e à salvo,
severo e invisível;
carne de letra-pólvora
- centelha ossificada.

E a borboleta suave da morte pousa.
"São quase duas da madrugada."

- A sopa é reles... Vês! - mas berra.

Reles é o roto chapéu junto ao chão charco,
ele caminha no palitó vago,
visto na chuva, deu de ombros,
e o alumínio se fundiu à reza.
Iluminou mínimas esperanças, mas já metralhava o céu
um jato americano.

Somos reles.
Célebres bacias, barrigas de baleias.
Casebres de inverno-carvão, sem margaridas.
Recrutas a manhã
pro final do dia, e ressequido,
morde o exército flórido de açucenas.

E na tarde,
teu doce velho veneno,
comporta sangue de ruir impérios,
comportadamente revolucionarizados.

Sois mais reles, e vejamos isso tudo:
Palavras sem pele,
zeros
pasquins sem cálcio e sílabas ocas.

A fome é verde, tem olhos crus.
Nasce dela e nela, entre mãos em bandeiras derrubadas,
a falácia toda acertada,
mas reles, também, nela, rasteja.
Plantas serviçais de amurada.

Prefire o afago a arranhar o estômago.
O salto ao tombo.
Sobram-nos, martelo e estrela de mortos.

Vesgos, nossos portos,
anseiam navios de partir somente.
Mil árvores morreram, e morrem e flutuantes.

E flutuamos reles,
nessa,
absurda-mente.

30/05/2008


Nem por isso morremos!

quando o pão não rolou à mesa
e a missa vazia, de barriga rota,
na boca a fria língua dos estetas
que rezaram santos por um deus de carne e osso

Nem por isso morremos!

quando enfeitiçados às vitrines natalinas, tivemos medo
e cortamos os pescoços junto ao balcão de metal, às olheiras de ferro
tinas de sangue para nos moldar
e os que souberam nos render e afundaram nossa vertigem de índios.

Nem por isso morremos!

quando afogados em latrinas desertas, escurecemos a bílis
quando sentados em altos edifícios, fincados no céu de girassóis,
representamos o último dia de nossas vidas

Nem por isso...

quando desfizemos as trouxas, depois de dez anos no gelo
cheios de barbas por fazer e cérebros de comer bolinhas
quando nada restava, senão um frango de feitiço e umas penas pra escrever

Nem por isso morremos!

(continuo)


Sepultas minha ânsia

e vês que tenho essa sede
dos que morrem de fome
e essa fome dos que morrem de sede

meu coração
é essa bomba dura e táctil
provém meu corpo de imperfeições;
qualquer silêncio enterra

não! pra essa mente
que se apequena no estreito quarto capitalista
o peito é maior! - nos queimam as manhãs.

não! pros supermercados de mortos
enterros inumanos, teus fósseis - dóceis mentes ferruginosas!

sigamos adiante...
onde há o cortejo frio
e a chuva da desgraça avança!
onde os rostos lembram rostos que não lembram nada

e os nós dos gravatas revolucionários no centro, lapeanos
afrouxam a pele, mil monopólios verticais e uma lua de ferro

a noite roxa sob o mercúrio plúmbeo de lama
aperta a boca e a descarga do peito - ninguém desdobra.

E meu coração
essa bomba táctil e dura
quer bater sufocado, pomba clara na vastidão de óleo
quer bater apressado nas segundas-feiras de horários e protocolos
quer bater suave nas portas do infortúnio burguês de uma vida miserável megalopolitana
e meu coração
quer ao menos bater,
duro e táctil.

23/05/2008


"Poema circular"
*não dedico este poema à Carol

Ainda que prefira a solidão anárquica
não esperes da minha boca algum botão vencido.
Não abrirei mais com as mãos rosa alguma
a não ser a que se abra dentro, em si.

Quando afundados em nós
tão ultrajados de certeza,
vem essa certeza tola e duvida.

Ainda que minha voz te conceda um tanto de mim
não duvides jamais de meus silêncios.
Que palavras poderíam contra eles?

E ainda que eu esteja aberto a todos os cantos
e a rir por eles, como em sinais de trem
rasurando estações de adeuses
estarei fadado a mim.

E saberá onde tocar a clarineta,
quando meus olhos te resolverem
e dessa tua poça de sangue soçobrar o casco torto
de nosso barquinho de ossos
no qual deixamos nossas praias inteiras,
sonhando porvires densos.

Ainda que eu mastigue teus lábios,
acredites,
não te amo.

E que enfeitemos a cidade
com nossos fantasmas ensolarados,
ainda que estejamos ali purulando,
- pulga no crânio do poeta,
acredites, não te amo.

E mesmo que eu te diga que te ame,
profundamente, amor, acredites:
- Não te amo.


Tu podes ser meu poema ou poesia:
o farol descarrilando nuvens, cor de luz
o carro-arol descendo a ribanceira
suave dreno - ar mecânico;
ou os caroles balões-ferrugem nos teus cabelos
ah carol!
podes ser meu poeminha.
CAROL, um caro farol me guiando... sem rima!
E minha tinta invisível à tua boca,
e em tua boca o percevejo do corpo -
erva daninha.
Que tanto anseio, nos seios pele e pêlo,
minha boca
toca de anzol,
caro e fundo.
O farol à roubar-te dos peixes...
ah carol, podes ser meu poema, poesia.
Rara dessas maresias,
dessas que não escrevo por escrever, só.
Podes ser se quiseres, sem rima,
meu poema certeiro,
vivo, vírgula,
ou poesia.

21/05/2008

Imagem por: Francis Bacon

"Mil cantos"

Quando disser o galo:
- Veeem dia!
Não virá.

Ali, cães sonolentos
resistirão escondidos,
entre conversações distantes,
divisando ruas, gente e silêncio.

Resistirão nos quintais os ladrõezinhos,
dormitando descansados,
sem o prever do fim.

Quando vier o galo e disser:
- Veeem dia!

O dia não virá - e duvidará dele.

Nisso, estaremos fechados
trancafiados vencendo a morte.
Resistiremos respirando sob as cobertas
o peso morto de nossos escombros.

E de tão breves,
o sol não tocará o pó;
nem devolverá a Terra nosso barro.

Vergonhosamente
tocará a campana um despertar descansado
em clarinetas
por mil vezes antes,
mas nenhum soldado erguerá um dedo sequer.

A guerra acontecerá dentro dos homens,
antes que a manhã por si aconteça,
mas não acontecerá.

O galo em vão
dirá outra vez:
- Veeem dia!

E não virá.

16/05/2008

"A poesia força as palavras a dizer
o contrário do que elas pretendiam."
(Carlos Drummond de Andrade)


Não roçamos na tarde
tua pena suave.
Dela nos invade
essa luz terna cheia de um sol que parte.

Não desviamos os laços:
- Ouro sem peso!

Poucos são teus beijos;
e vão-se em bocas inumanas - marejam.
Muitos são ao ir e vir de insetos,

e dormem em férreos olhares - milhares!
somando pessoas - largas e estranhas faces.

12/05/2008

Imagem: meu "comentário presente" no blog do poeta
"Fabrício Carpinejar"
(clique para vê-la aumentada)

Leiam em:
www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br

"Meu último nome"

Me dera um tanto amarga, confesso,
tua ausência - e nem lembro.
Ficou nessa tua cara amarela,
a minha.

E o nosso jeito de deixar tudo apagado.
Pro meu peito, a faca da velha falta.
E tuas tralhas comigo

carrego-as como coisas que enfeitam
a cômoda vazia.
E a infância, minha ilha incômoda.

Me propusera o gosto de saber
que o medo é o exato gosto de saber.
O que se sabe não apavora.

E eu sempre soube que não apareceria.

Fiquei em casa esperando tua voz;
o tênis,
o peixe,
as velas no bolo te esperaram comigo,
e o abraço desativado.

Não tenho mais tua presença, é certo.
Mas meu filho terá a minha e a tua também.
No fim, aprenderemos de verdade.

A verdade é o que desaprendemos pra fora.

E de tudo que não tive,
só tua sombra pôde rouba os buracos
nas fotografias.

Nas manhãs de praia,
quando viajei pro gelo do teu riso fálico.
Teu longo bigode escondia.

Só tua sombra aparece na porta da escola.
No campinho de barro, pra testemunhar
o único gol que eu fiz.

Eu lembro,
te desenhei com os cabelos compridos
- era minha mãe.
Pros dias eternos dos pais que não tive.

E fora todos eles.

E agora me presenteias.
Tua ausência me fará tão presente
que meu filho entenderá.

Saberá o quanto temerei minha própria ausência.
Temendo a sua.
E no presente, essa tua falta,

fará de mim teu pai - de alguma forma.
Ainda que ainda, nessa vida ao menos
seja eu teu primeiro filho.

05/05/2008

Posso escrever um poema
pra ela que me tem escrito lembranças.
Não dessas que balançam nos cernes dos poemas brancos,
mas nos inexatos, ou de maiores braços.

Posso escrevê-lo sem peso, sem língua.
Senão a do beijo, da boca mofada à mordida.

O poema ponte nua em pêlo e sangue.
Que me ligaria àquele riso, sem gestos;
aquele de chegar aos olhos, infestos,
e afirmar o mundo.

Posso escrever esse poema ao seu lado,
sem uma palavra - nenhuma rima.
Derivá-lo de suas costas,
em qualquer linha, um largo rio forma,
desembocando à Laguna -
lua Sérvia no sertão fantasma.

Poderia vertê-lo no chá de pêssego às três,
quando ela volta da cidade;
dentro do casaco de bolinhas verdes, casco de lã,
ou semeando a voz oculta ao telefone - meu tom navio.

Poderia tê-lo caído, sobre palmas de árvores
que desenhamos juntos
quando à luz de postes, nas ruas à noite,
somos sombras.

Eu poderia escrever este poema calado, de birra;
ou dizê-lo apenas - sorrindo em soslaio.
Mas o farei como me foi dito, alongado.
E mesmo já o tendo escrito,
saberei que não é da escrita que me exalto,
mas dele mesmo:
poeminha estranho este,
quase um rito.

("poeminha" para Carolina)


A precisão do que tão preciso pôde ser
preciso e resoluto,
enigmático espírito de toda breve precisão;
que a matemática absorve, na árvore,
tua milionária sombra,
dentro da matemática assombrosa de folhas
e de caules,
jaz no concreto abstrato,
monstros de filamento - a solução.
Gerando-se em números
dar-se-hão espíritos, luminosos dígitos
- e agitam suaves, que bandeiras?

Mais que precisas formas ditam,
aos que precisam deformá-las.

"Há vinte anos não digo a palavra
que sempre espero de mim
Ficarei indefinidamente contemplando
meu retrato eu morto."
(João Cabral de Mello Neto)
.
.
Brinco de semear doçuras
com a candura de quem
com o tempo agita.

Desses círculos velhos,
flâmulas cegas voam.
Senhoras e crianças na fila de espera.

Ele de certo esconde o que o bonde deflagra
fumando a tarde num café,
aos pés do rio largo de asfalto.
Ela de certo o esperava,
depois do saber de morte
o gosto mudara, vertiginoso - ninguém duvida.
E ninguém, mesmo duvidando, depõem contra o muro escuro.

Ela, ogiva de dentes,
semeando planaltos.
Em seus cabelos as notícias da cidade,
e a rede de esgotos fluviais acende!
Férreas cartas me chegam aos pés da porta.
Em nenhuma delas teu nome.
Nem o cheiro falsiforme
do perfume estranho
dentro, nas veias dos correios,
percorrendo em silêncio -
mas não veio.

Brinco de escrever canduras e doçuras que o tempo revira.
O colírio do céu mergulha a lua azeitada, de onde vejo,
os mais justos sentam-se para um tempo de brisa na praça.
Ela atravessa seus rostos, eu observo.
Poderia ser teu rosto no dela, atravessando.
Ninguém chega.
Nem a notícia dos que não sabem.


Imagem: Kandinsky Wassily "Mit und Gegen"


Em cor a sentença
emoldura a voz que fala
Meio palavra morta
ora palavra escrava,
dela mesma - recompensa.

O que a leveza tece, por si só cala.


O negro que a mesma escala
tem profundeza sem fundo.
Quando não dita, destreza,
é por sentir demais fecundo.


E dela se tem
se quer a leveza
no mais sobra, a certeza
que não há peso mais leve
que o dela mesma:


palavra:
sede da voz,
acesa.

quando escura é luz
quando reluz, somente,
represa.

O único lugar onde as palavras devem ter peso.
.
Imagem: lista de mercado do último fim de semana
.
A voz esconde a cara feia do silêncio.
Bem resguarda o homem de si, o que o consome - em pensamentos.
E atravessado em incêndios noturnos,
vai dar com os lábios à boca mole do tempo.

30/04/2008

Imagem por: William Galdino "Os Dois"

tenho visto
que não é de punhal que mata a dor que mata
é de não ferir d´uma só vez
e essa coisa que chamam dor, só arranha - não corta, lacra
não é dor, pois não é dor já o que não sentes
posto que é funda e não latente
não é mais, não é nunca!
sorte é ter no peito uma estaca
que te atravesse sem gesto e vare
mais pra dentro da praça – e sol aberto teu peito vira
não quero ver na pieguice essas palavras entrar porta à dentro
mas quem não atira sangue aos porcos quando morre?
assim não defende tua sorte, terrível canto
que retórica?
dos corações absurdos?
não sejamos burros, já que sabemos
que não é de punhal que mata a dor que mata
é de não ferir d´uma só vez ao menos
quer que sangremos mais quando na morte deixamos
não sejamos burros... que coração nesse embate vão consegue ser duro?

Imagem por: Kandinsky "Autumn in bavaria"


Minha urina na árvore
tua voz entre mil, distante

ouvi tua palavra - qualquer
pensei em você em casa
na mangueira do quintal aberta
nas cores do jogo americano tropical

teus cabelos abertos, a mangueira
minha urina na árvore
nascendo tão dourada
como em mim, nascendo
teu encanto.

Lapa, madrugada de 12 de abril de 2008


29/04/2008

Não.
Nem o vento que sopra à rua
nela, dentro dela ventando,
perduraria teu breve uníssono caminhar.

Ou quando te lembras da infância, e lanças adulto,
qualquer canto que te encantas e adormece tudo,
inda criança
- teu riso é leve, um surto;
mas não sustenta no velho menino cheio de ofícios,
o fátuo fogo que ardera.


Não.
Em tuas mãos apunhaladas, flores no quadro.
E em teu nome jaz no cimento do cemitério, e depois,
soubemos de tua casa, teus miseráveis cômodos...

Nada.
Não, nada disso perduraria mais.
Pois, nada nele é pra se perdurar,
embora ousemos.
Breve,
tão breve é o poema.




Sentemos,
mesmo que o tempo nos tenha engolido.
Sentados saberemos que ali estamos,
e o tempo passando somos,
do que fomos ─ acesos,
pro que deixamos de ter sido.


conter... conter é repreender a represa.
conter é seifar o vento com o muro
refugar o pulo
quero é desconter
pra contentar-se com o descontido
contente-tido sempre!
te quero assim, abruptamente:
água de riacho furtiva
água de cachoeira solta
que teus cabelos me dominem!
que tuas mãos me soltem!

Imagem por: William Galdino (J.D. Salinger)


Não quero que inverta minha cara,
nem que me invente um sorriso.
Pra ti quero é ser torto, como meus dentes da frente.
Ou meu rosto nesse espelho surdo — invertido.
A única "tortura" que há é o não se saber, por exato,
quem ao nosso lado está, de fato, e tem sido.


Imagem por: Van Gogh

"Não mais poeta do que sou
quando não sou — poeta,
pois não escrevo poemas ou poesias,
lavro palavras."


— Porque o túmulo há sempre de entender o poeta —, (Baudelaire)